Joaquim Cardozo e a crítica

                                               Maria da Paz Ribeiro Dantas


     Embora tenha sido uma personalidade que se destacou nos campos da poesia e da engenharia, Joaquim Cardozo continua pouco conhecido, pouco lido, e quase nunca citado. João Cabral de Melo Neto, Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, Cecília Meireles, Jorge de Lima, são nomes familiares quando se trata de citar preferências literárias. Joaquim Cardozo quase nunca está presente nessas referências. Seus livros há muito estão esgotados e fora das livrarias. Qual o motivo desse esquecimento?

     Houve no entanto críticos que se ocuparam de Cardozo, de sua poesia, e dele falaram, alguns em tom comovido como Antônio Houaiss e o poeta Carlos Drummond de Andrade. Sebastião Uchoa Leite, Fernando Py, José Guilherme Merquior e outros falaram dessa poesia, destacando, entre vários aspectos, o conteúdo de partici--pação.

     Num momento histórico em que o projeto das vanguardas resultava em manifestações como a Semana de Arte Moderna, em São Paulo, em outros pontos do país a busca da identidade brasileira nem sempre superava o destaque do pitoresco. Joaquim Cardozo, desde o início, manteve-se lúcido no tratamento de seus temas. Falando de Poemas, Antônio Houaiss assim se expressa: “Nos POEMAS há, de fato – como tributo de uma feição regionalista que vigorou em nossa poesia de por volta de 1930 –, uma série de peças que têm como plano evidente a paisagem nordestina, pernambucana. Mas Joaquim Cardozo – que sofreu naturalmente a marca de nossa evolução poética e de suas conjunturas – se distingue no tratamento desse tema por lhe dar uma substância altamente evocativa e com larga projeção do seu subjetivismo no objeto poetizado, excluindo ao mesmo tempo o pitoresco e o exótico – tão explorado então –, que só aparecem episodicamente em função de seu poder e necessidade evocativos - o que dá a esses elementos já não o caráter do pitoresco e do exótico, mas o de elementos concretos para uma vivência poética autêntica e definida.

     No prefácio que escreveu para esse mesmo livro (POEMAS), publicado em 1947, o poeta Carlos Drummond de Andrade já associara o homem e seu temperamento ao produto poético dele resultante: “Inclinado à solidão pelas exigências do temperamento, Joaquim Cardozo foi porém, modernista mais ausente do que participante. Se refletiu as inquietações de época e de grupo, fê-lo sem a passividade que em outros poetas daquela fase excluiria qualquer reivindicação do indivíduo. Um aparelho severo de pudor, timidez e autocrítica salvou-o das demasias próprias de todo período de renovação literária e permitiu-lhe dedicar às coisas pernambucanas enfim admitidas no campo de poesia uma contemplação que não se deliciava na superfície, buscando penetrá-las no seu significado ou no seu mistério”.

     As palavras há pouco citadas, de Antônio Houaiss, foram pronunciadas numa homenagem prestada a Joaquim Cardozo, no sexagésimo aniversário do poeta. Daí o tom comovido de alguém que, reconhecendo a altura da obra poética de Cardozo, valeu-se daquele momento para alertar todos os que de um modo ou de outro se sentem ligados a ele, conclamando-os a participar da verdadeira homenagem a que o poeta faz jus: “...melhor fora que todos os que formamos entre os admiradores fraternos de Joaquim Cardozo neste sexagésimo aniversário do Poeta, reuníssemos seus poemas entre os quais se incluiria esse dentre os mais desconhecidos, entretanto dos mais altos poemas que em linguagem foram postos - “Prelúdio e elegia de uma despedida” -, a cuja simples aproximação cada um de nós se comove com reconhecer-lhe uma substância raramente atingida por poetas, e os estampássemos em tipografação condigna, para a vivência de todos os brasileiros, fazendo outro tanto com os seus artigos, aparentemente efêmeros, mas todos vincados pela garra, inteligência e sensibilidade privilegiados. Só assim quaisquer homenagens que se lhe prestassem, nesta data, deixariam de ser anti-homenagens para serem, não a homenagem que Joaquim Cardozo merece, sim o tributo que lhe devemos, como retribuição ao que lhe devemos”.

     Também o crítico Fernando Py, um dos mais dedicados ao estudo da obra de Cardozo, publicou dois longos trabalhos. O primeiro, de 1972, no volume IV da coleção POETAS DE MODERNISMO, edição do Instituto Nacional de Livro. Do segundo, consta um trecho que resume a opinião do crítico sobre o conteúdo social da obra de Joaquim Cardozo: “O que distingue, essencialmente, a poesia de Cardozo é sua constante preocupação no tratamento do tema, seja o Nordeste convulso, miserável, sedento de evolução social, seja o amor, e nele, uma atitude de confraternização, de entrega, de integração não exatamente na natureza circundante, mas de caráter racional, intelectual, de modo que o espírito e a matéria sejam um só; seja o mesmo espírito, livre, sejam as especulações sobre a existência e o pensamento humanos; seja esse mesmo espírito em associação com as diárias contingências do fazer/dizer, lembrando, até certo ponto, a dualidade que existe entre a obra acabada e as infinitas possibilidades de uma obra em constante progresso”

     Sebastião Uchoa Leite, em PARTICIPAÇÃO DA PALAVRA POÉTICA, é bastante preciso ao identificar na poesia de Joaquim Cardozo “uma aspiração contínua a apreender o imponderável nos seres”, e com razão reconhece ser esta uma marca comum a toda a poesia cardoziana, pelo menos até 1966, data da edição do livro.

     Comentando Signo Estrelado, o segundo livro de Cardozo, datado de 1960, Uchoa Leite afirma que existe nele “um retorno às fontes temáticas nordestinas, agora passando por um novo crivo de universalidade”. Em Signo Estrelado “se revela também uma nova opção pelas formas e ritmos tradicionais, ainda que sob o signo de uma pesquisa lingüística. Joaquim Cardozo nunca chegara a ser um modernista ortodoxo. Sua linguagem, extremamente selecionada, revelava sempre uma atitude de reserva”.

     Ao refletir sobre o aspecto telúrico do que ele chama de poesia modernista, José Guilherme Merquior deteve-se no poema “Imagens do Nordeste”. Cardozo é então posto ao lado de Jorge de Lima e Ascenso Ferreira, na consideração de Merquior: “Basta reler algumas estâncias de uma peça como “Imagens do nordeste“, de Cardozo, para ver o quanto essa poesia regional se banhou de emoção genuinamente válida para o Brasil e o mundo, sendo o amor da terra elevado ao universalismo dos mais altos sentimentos, num jogo entre a particularidade do solo e a excelência da arte, entre o cingir-se ao ambiente e o valor para qualquer local, regionalismo portanto de integração de culturas”.

     De abril de 1961, ano seguinte ao do lançamento de Signo Estrelado, é o artigo “Tradição e Vanguarda - Experiência sem Raiz” , do crítico e poeta Mário Chamie, publicado no jornal A Noite, do Rio de Janeiro.

     Nesse artigo, o líder da poesia Praxis reconhece que “Joaquim Cardozo é um bom poeta do modernismo. É um dos poucos que conseguiu uma limpeza clássica ao lado de certa prodigalidade imaginativa. Toda a parte de ‘Arquitetura Nascente e Permanente’ exibe sua ampla vocação de instrumentalista sábio e fecundo”.

     Chamie, não obstante, faz restrições sérias a certa tendência de Cardozo ao experimentalismo, referindo-se “às tentativas de poemas pictográficos, às siglas esotéricas espacializadas e às transposições letristas que respingam em seu Signo Estrelado.” Justifica sua restrição argumentando que aquelas experimentações de Cardozo em matéria de espacialização de signos visuais destoam da “unidade de significação” do livro ( Signo Estrelado), que para ele, Chamie, é conteudista, de mensagem e de condicionamento humanitários, à maneira da poesia participante de 22”. Argumentação que o leva a concluir que Joaquim Cardozo, ao fazer incursões num campo em que demonstrou não estar devidamente habilitado, o que fez foi dar passos em falso; passos que não só foram inúteis no sentido de estabelecer “elos entre a tradição e a vanguarda”, mas poderiam até mesmo servir de obstáculo aos “prospectos revolucionários de uma poesia recente”.

 

 



     A crítica de Chamie às experiências “pictográficas” de Signo Estrelado, feita na década de 60, não alcançou Trivium (concluído em 1970). Em Visão do último trem subindo ao céu”, figuras como o “sinal de surpresa”, e outros signos visuais se integram organicamente ao texto verbal, não sendo, longe disso, uma peça supérflua dentro do texto.

     Em novembro de 1978, mês e ano do falecimento de Joaquim Cardozo, o poeta Audálio Alves publicou, no suplemento cultural do Jornal do Commercio (edição especial) artigo em que homenageia o poeta. Nesse artigo faz uma avaliação crítica do conjunto da obra de Cardozo, vendo-a numa perspectiva de relação com a poesia brasileira em geral: “Colocando-se acima de todas as tendências da poesia pos-modernista, mas sem desconhecê- las ou propositadamente ignorá-las, (Joaquim Cardozo) conseguiu realizar uma poesia constantemente enriquecida pela adoção de novos instrumentos ou recursos, o que fez sem seccionar aquela viga-mestra (“principio da continuidade ascensional da arte”) que projeta sua produção poética como obra una ou unidade vivencial contínua, num perfeito paralelismo entre o homem e o universo dinâmico. De quanto viu e ouviu inclusive da experimentação metódica ou conveniente de todos os ismos novos, ou modernos, retirou o “material” que lhe pareceu mais válido, mais consistente para a soberba construção do seu edifício literário, não menos belo e eterno do que as formidáveis estruturas de construção de Brasília, por ele calculadas”.

     Em 1987, um jovem poeta e crítico identifica Joaquim Cardozo como um marco na renovação da poesia no Brasil. No artigo “Cardozo e a equação do lirismo”, Felipe Fortuna estranha a ausência do poeta de “Poema para uma voz e quatro microfones” , nos manifestos concretistas. Defendia, naquele texto, a tese de que “Joaquim Cardozo é, no Brasil, quem efetivamente aproximou a percepção verbivocovisual da expressão poética, harmonizando sua prática com o domínio de mais de uma dezena de idiomas e de filosofia da linguagem. Nesse sentido sua poesia, tanto pela base natural quanto pela realização, é largamente superior a de Oswald de Andrade - o mesmo que naquela época teve sua obra desastradamente aproximada de Joyce. Ironicamente, o respeito que os concretistas nutrem pela poesia de João Cabral agrava esta inexplicável ignorância; pois, sob certa perspectiva, não se pode compreender a poética do autor de MORTE EVIDA SEVERINA (1955), sem se referir à de Joaquim Cardozo.Os pontos de contato entre os dois são evidentes, seja quanto à construção do poema, seja quanto à consciência da linguagem”. (Idéias. Jornal do Brasil, 7. 3. 1987).

     Com uma leitura que inclui as implicações histórico sociológicas contidas no poema “Recife morto”, Moema Selma d’Andrea mostra a ruptura causada pela linguagem do poema “na cerrada tradição lírica provinciana, habituada à transparência de uma literatura amena que se repartia entre diluídos sonetos amorosos e a descritiva e louvaminheira exaltação da paisagem local”. Moema Selma vê em “Recife morto” não a fixação na saudade do passado, mas a tensão entre dois tempos representados pelo velho e pelo novo: “O poeta amplia a tensão entre o ‘velho’ e o ‘novo’, elaborando no interior da linguagem poética a fascinação lírica de duas realidades contrárias, o Recife da tradição e o Recife da ‘manhã vindoura’. No ar prenúncio de sinos”.

     Em “O universo poético de Joaquim Cardozo”, prefácio aos POEMAS SELECIONADOS, que organizou e editou no Recife, em 1996, o poeta e crítico pernambucano César Leal destaca, entre outros aspectos, a capacidade que Cardozo demonstra em sua poesia de moldar plasticamente o material lingüístico, num trabalho de “apropriação de novos processos que enriquecem a língua, e isso é observado quando pela primeira vez, em um poema simples, suspende o adjetivo e o alarga até a posição de um advérbio, manobra impressionante que lhe permite dar à língua novas forças e, ao mesmo tempo, solucionar um problema de rima e métrica. Isso ocorre em um poema de prospecção regional “Imagens do Nordeste”, do seu primeiro livro.

     Outra abordagem pernambucana da obra de Joaquim Cardozo vem de Luís Carlos Monteiro, poeta e ensaísta, que viu na poética do autor de POEMAS um “lirismo objetivado”, de “consistência formal e conteudística que vai se ampliando substancialmente no decurso do tempo”, (...) “como uma preparação do instrumental e dos materiais expressionais que permitirão o inesperado de sua produção futura”, quando então “o elemento lírico no texto cardoziano passa a realizar-se mais plenamente num sentido dialético quando contrapõe ou envolve, de forma direta ou indireta, categorias “estetizantes” como o ser e a natureza, o objetivo e o concreto, o aberto e o fechado, o dentro e o fora. Do cerne dessa contraposição, desdobramento, interpenetração ou separatividade, resultam algumas das variantes e subgrupos temáticos principais que norteiam a poética de Cardozo”. 13

     Muito além do “desvelamento sociocultural” indicado no subtítulo de UM TEATRO DA MORTE, de João Denys Araújo Leite, a exaustiva pesquisa e interpretação de Denys sobre o teatro de Joaquim Cardozo constrói um espelho muitifacetado onde se refletem os mais diversos jorros culturais que alimentaram a veia dramatúrgica do autor de O coronel de Macambira. Desde o Tao-Te King ao teatro balinês e o Nô japoneses, chegando até Yukio Mishima e Bertolt Brecht.

     Considerando-se a diversidade de fases da obra de Joaquim Cardozo, em que as opiniões citadas foram emitidas, como também as formações heterogêneas de seus autores, destaca-se o que há de comum na maioria delas: a empatia pela obra e o reconhecimento de um poeta em quem a consciência da linguagem alcançou um alto grau de elaboração. Expressando uma temática que reflete a preocupação com a terra e com o homem, Cardozo manteve tal preocupação em equilíbrio com as exigências de uma poesia voltada também para o rigor da forma.


NOTAS


1. Antônio Houaiss. Drummond, mais Seis Poetas e um Problema. Rio: Imago, 1986, p.201.

2. Carlos Drummond de Andrade. Prefácio ao livro Poemas. Rio: Agir 1947, p.8.

3. Antônio Houaiss. Op.cit., p.202.

4. Fernando Py. Chão da Crítica. Rio: Francisco Alves, 1984, p.13-90.

5. Sebastião Uchoa Leite.Participação da Palavra Poética. Petrópolis: Vozes, 1966, p.51-52.

6. José Guilherme Merquior. Razão do Poema. Rio: Civilização Brasileira, 1966, p.24.

7. Mário Chamie. Alguns Problemas e Argumentos. São Paulo: Conselho Estadual de Cultura - Comissão de Literatura., 1964, p.24.

8. Ibiden

9. Ibid. p.25.

10. Ibiden

11. Moema Selma d’Andrea. A Tradição Redescoberta . Editora da Unicamp, p.24.

12. César Leal (org.). Joaquim Cardozo. Poemas Selecionados. Recife: Edições Bagaço, 1996, p.6.

13. Luís Carlos Monteiro. “O fôlego poético múltiplo de Joaquim Cardozo”, in Suplemento Cultural. Diário Oficial/PE, agosto, 1997, p.25.

14. João Denys Araújo Leite. Um teatro da morte. Fundação de Cultura Cidade do Recife, 324 pág. 2003.
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 Rede de Idéias                           Editora: Maria da Paz Ribeiro Dantas. Colaboração especial: Douglas Tabosa de Almeida                                      .