Cyl Gallindo
Escritor e jornalista
Tinha uma dívida comigo mesmo de escrever sobre Joaquim Cardozo. Ao ser eleito para o Instituto Histórico e Geográfico do Distrito Federal, indicaram-me um nome, como patrono da cadeira, de quem jamais ouvira falar. Fiz uma carta à diretoria do Instituto pedindo para substituí-lo por Joaquim Maria Moreira Cardozo, ou, simplesmente, Joaquim Cardozo.
Cardozo detinha conhecimentos de ciências, filosofia, filologia, literatura, artes plásticas e cênicas, enfim, da vida. “Um profundo conhecedor da raiz de todo o pensamento humano, do Ocidente ao Oriente”, como o definia Manuel Bandeira, com quem mantive longa convivência. Sendo que o maior título, a justificar a minha escolha, em se tratando do IHGDF, era o de que Joaquim Cardozo foi o calculista de Brasília.
A bem da verdade, Brasília está edificada, servindo de modelo à Arquitetura mundial, graças a três nomes: Lúcio Costa, Oscar Niemeyer e Joaquim Cardozo. No entanto, em Brasília reverenciam-se, honram-se e cultuam-se os dois primeiros nomes, enquanto Joaquim Cardozo foi posto num declive em direção ao esquecimento.
Sua grandeza é reconhecida internacionalmente e por Oscar Niemeyer, seu amigo de momentos de descontração entre taças de vinho, companheiro de viagens e de trabalho - da construção da igreja da Pampulha, em Belo Horizonte, a Brasília; como o próprio Niemeyer revela: “Cardozo lembrava, então, como lhe custava calcular o Congresso Nacional e como estava eufórico ao me telefonar um dia:” --Oscar, consegui a tangente que vai fazer a cúpula da Câmara, solta como você queria!”
Minha opção, no entanto, não visava apenas a homenagear o engenheiro, matemático e calculista de Brasília, com os palácios do Planalto ou da Alvorada, a Catedral, os prédios dos tribunais ou dos ministérios, mas reverenciar o mestre-amigo, o conterrâneo, uma vez que a minha vida intelectual está historicamente vinculada ao nome de Joaquim Cardozo.
Na década de 60, eu morava no Largo da Glória, Rio de Janeiro, e a duas quadras dali, na rua Correa Dutra, morava Luiz Luna, o mais autêntico pernambucano que conheci, escritor vigoroso e polêmico. Autêntico no sentido de cultivar o dialeto, os hábitos e costumes, na exaltação da nossa História, do negro da senzala, do cortador de cana, do sertanejo e do desvalido. Promotor da pinga e dos pratos regionais. Na sua casa, a delicadeza de Lea Luna, sua esposa, pintora de motivos amazônicos, e de Maria Elisa, sua filha, hoje diplomata, cediam naturalmente espaço ao vozeirão e gestos largos de Luiz Luna, não por subserviência, mas porque sabiam que por trás daquele rompante existia um coração compreensivo, acolhedor e amigo, do qual eu me aproveitava nas visitas constantes.
Numa certa tarde Luiz Luna convida-me para uma das costumeiras visitas a Barbosa Melo, da Editora Leitura, na rua das Marrecas. De lá, fui levado à ruaMéxico, n o. 41. Subimos o prédio e numa das suas salas fui apresentado ao poeta Joaquim Cardozo. Três ferrenhos pernambucanos juntos, o assunto foi o Recife. Nunca mais paramos de conversar. Sempre que eu podia, ia ver aquela extraordinária figura comovente. Simples, delicado, manso, que só fazia rir com as exaltações do Luna. E minhas também.
Não demorei reconhecer que se tratava de um sábio, na expressão exata da palavra.
O homem conhecia dezessete idiomas básicos, como grego, latim, hebraico, sânscrito, chinês, japonês, russo e todas essas línguas cultivadas no Ocidente, juntando-se a isso o conhecimento analítico dos mais expressivos nomes da Literatura Universal, da Filosofia e das Ciências exatas e sociais, a justificar a definição de Bandeira. No entanto, fazia questão de esclarecer que só falava português.
Eu me sentia embevecido diante do Mestre, com seu modo de ser manso, paciente e disciplinado. Até mesmo os seus momentos de silêncio tinham o sentido dos interlúdios das sinfonias. Não houve entre nós uma amizade íntima, como a que mantive com Luiz Luna, Manuel Bandeira, Joaquim Inojosa ou Plínio Doyle, de quem freqüentava a casa e a quem fazia visitas extemporâneas e telefonava. Cardozo era por natureza solitário e reservado, e eu o respeitava como ele era. Conversávamos sobre o que eles queriam conversar, o que para mim bastava, pelas lições que resultavam de tais diálogos.
Houve o golpe de 1964 e eu me auto-repatriei no Recife. Aqui, recomecei os estudos cursando Ciências Sociais, na Universidade Federal de Pernambuco, tendo como professor o sociólogo Pessoa de Moraes, que tinha o costume de reunir jovens escritores e artistas em sua residência, promovendo festas memoráveis. Numa delas, com a presença de Mauro Mota, Vasconcelos Sobrinho, Audálio Alves e tantos outros, Gilberto Freyre lançou o saiote (tipo escocês) para uso masculino, nos Trópicos.
Noutra reunião, em 1965, reencontrei Joaquim Cardozo. Viera ao Recife visitar familiares e amigos. O Mestre estava deslumbrado em meio àquela juventude tagarela e inconseqüente. Tão logo houve oportunidade, disse-lhe haver organizado uma antologia reunindo dez poetas e dez desenhistas do grupo. Como ele manifestasse interesse de ver o trabalho, prometi enviar-lhe, não sem antes perguntar se ele aceitaria prefaciar o livro. Ficou de responder após a leitura dos trabalhos. Semanas depois, a resposta chegou acompanhada do Prefácio. Com depoimentos de Pessoa de Moraes, Mauro Mota, Audálio Alves e de Aguinaldo Silva, que também se encarregou de procurar uma editora, a Agenda Poética do Recife – Antologia dos Novíssimos – estaria batizada e crismada. O editor foi Victor Alegria, e a sua recém-fundada Coordenada Editora de Brasília. Dessa forma surgiram a Geração 65, do Recife; e a editora, em Brasília, que hoje se denomina Thesaurus Editora, pelos mesmos motivos de repressão que me levaram de volta a Pernambuco.
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No prefácio, Joaquim Cardozo fez um perfil sucinto de cada poeta participante, mas com tamanha clarividência na análise que até hoje nenhum deles arredou pé da linha mestra das suas previsões.
O nosso entrosamento não termina por aí. Em 1975, organizei uma antologia por solicitação de Fernando Mangarielo, para a coleção Assim Escrevem os... da Editora Alfa-Omega, que não a publicou, e o livro terminou saindo pela Massangana, com o título Contos de Pernambuco, no qual incluí “Brassávola”, de Joaquim Cardozo, que eu considero um dos mais belos contos da Literatura Universal.
Quando aconteceu o terrível caso do pavilhão da Gameleira, em Belo Horizonte, pelo qual foi responsabilizado, Joaquim Cardozo mandou-me um dossiê completo sobre o assunto, como quem pedia para eu não acreditar nos seus acusadores. O que não seria preciso, pelo que eu já havia lido dos seus defensores, como o próprio Lúcio Costa e o advogado Evandro Lins e Silva. Sobejamente apoiado em pareceres técnicos e opiniões abalizadas, eu já estava totalmente convencido de que não lhe cabia culpa alguma. Fato este que a justiça confirmou, absolvendo-o. Mas como “a justiça tarda”, tardou demais para proferir essa absolvição. Antes de chegar, mesmo convicto de não haver errado, o poeta, que era incapaz de ofender um inseto, sentindo-se acusado por inimigos gratuitos, perdeu a paz, a alegria, a perseverança, a confiança nos homens e definhou até a morte, que se deu a 04 de novembro de 1978.
Joaquim Cardozo foi para o plano superior deixando uma lacuna cada vez mais crescente, mas os efeitos da obra que produziu como escritor vêem promovendo uma sistemática revigoração de sua memória.
Os primeiros trabalhos que conheci a seu respeito, mostrados pelo próprio Cardozo, foram escritos pelo poeta Fernando Py, no Rio de Janeiro. Aqui no Recife, surgiu Maria da Paz Ribeiro Dantas que, ao defender tese na Universidade Federal, enfocou o tema O mito e a ciência na poesia de Joaquim Cardozo, publicada pouco tempo depois pela José Olympio Editora, em 1985. Estudiosa incansável e crítica criteriosa, Maria da Paz compreendeu estar diante de um universo inesgotável. Logo nos deu Joaquim Cardozo: ensaio biográfico, pela Fundação de Cultura Cidade do Recife, em 1984. Aprofundando-se mais e mais, escreveu Joaquim Cardozo Contemporâneo do Futuro, ENSOL /Recife /2004.
Assim, já se encontram no prelo da Nova Aguilar, Rio de Janeiro, os originais das Obras Completas de Joaquim Cardozo, com participação de Maria da Paz, Fernando Py, Sônia e Everardo Norões, Paulo Fernando Cardozo, (sobrinho do poeta e detentor dos seus direitos autorais), e mais Manuel Bandeira, João Cabral, Carlos Drummond de Andrade, César Leal, Jorge Amado e outros.
Joaquim Cardozo disse-me certa vez que não sabia onde começava a matemática e terminava a poesia, nem onde começava a poesia e terminava a matemática. Como Paul Valéry - e creio ser esta a melhor lembrança de poeta-matemático para invocar Cardozo - , o nosso matemático, teatrólogo e poeta desvenda nos seus textos os quatro elementos da natureza. Pelo fogo, a luz; pela água, a fertilidade; pelo ar, os movimentos; e pela terra, a estabilidade. Cerzindo com musicalidade espantosa desde a grandeza do cosmo à pequenez do homem, com as suas dores ou os seus prazeres ou os seus espaços limitados e fechados, ora sob o domínio pleno da razão ora da emoção.
Ciente da impossibilidade de fazer um esclarecedor trabalho à altura do meu homenageado, termino esta simples nota com um poema de Joaquim Cardozo que reflete muito bem o Eu Universo e o Eu pessoa habitantes do seu talento:
O Um e a Sua Intimidade
Joaquim Cardozo
No Um está o ser isolado e
[está o Universo.
Não é naquele ser, porém, nem neste Todo
Onde reside a sua intimidade.
Não está no subjetivo, nem na unidade
O Um é único e absolutamente disjunto
Não tem abertura nem fechos.
O Um não participa, como supõem
Das unidades do corpo dos complexos
dos quatérnios
dos octérnios
dos sedênios
A sua intimidade é a infinita singularidade
Do só, a infinitude da concentração do ser
SER
É o ser sobre o ser:--------------=UM
SER
A intimidade do Um está no valor da função
Que na sua origem, num breve, infinitamente instante,
liturgicamente
Oscila eternamente entre + 1 e – 1.
Entre os dois, no entanto, não há tempo zero –
A intimidade do Um está no ponto antesdepois
Do teu prazer, Mulher!
Está no ponto AntesDepois da Morte.
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