O engenheiro da poesia

                                                               Geraldo Santana


     Joaquim Cardozo revela-se desde muito jovem, interessado em literatura, poesia, matemática e desenho, figurando em 1913 entre os redatores do jornal “O Arrabalde” e, no ano seguinte, como caricaturista nas primeiras charges políticas do “Diário de Pernambuco” enquanto concluía o secundário e ingressava na Escola Livre de Engenharia. Teve que interromper o curso várias vezes após a morte do pai, um modesto guarda-livros. Seu primeiro emprego formal foi como topógrafo da Comissão Geodésica de Pernambuco. Entre 1920 e 1923, realiza levantamentos, desenhos topográficos e demarcações de terras nos subúrbios do Recife e no litoral da Paraíba. Por uns meses, reside no Rio de Janeiro, onde pretendia continuar o curso de Engenharia, mas logo retorna, reassumindo seu emprego no Recife.

      No final de 1923, com a Semana de Arte Moderna já divulgada no Recife pela “Revista do Norte”, Cardozo faz várias amizades no meio jornalístico e intelectual, integrando o grupo que liderou o movimento modernista em Pernambuco. O grupo se reunia, à noite, no Café Continental, no centro da cidade, o “Cenáculo da Lafaiete”, como chamou Souza Barros. (2) Nos dois anos seguintes, ele dirige com José Maria de Albuquerque a “Revista do Norte”, na qual se desenvolve como artista gráfico e crítico. Como ilustrador, criou vinhetas e um alfabeto de capitulares, com temas e flora regional. A revista publicou seu poema mais famoso e de maior impacto na época, “Recife morto”, elaborado em 1924; Recife, / ao clamor desta hora noturna e mágica,/ vejo-te morto, mutilado, grande, /pregado à cruz das novas avenidas./ E as mãos longas e verdes / da madrugada /te acariciam (3).

     Nele, o poeta amplia a tensão entre o “velho e o novo”, “elaborando no interior da linguagem poética a fascinação lírica de duas realidades contrárias: o Recife da tradição e o Recife da manhã vindoura”. Com essa perspectiva de confrontação e transformação, Cardozo ingressa na “expressividade lírica contemporânea”. (4)

     Morando sozinho em casas e sobrados do centro da cidade, fazendo refeições em restaurantes, cafés e bares e freqüentando o meio intelectual, o “Cenáculo da Lafaiete” e a “gráfica” da “Revista do Norte” (a casa da família de José Maria), Cardozo reinicia, em 1927, o seu curso de Engenharia, diplomando-se engenheiro civil em 1930 e trabalhando nesse período na elaboração de projetos de irrigação com o engenheiro alemão Von Tilling, e em projetos rodoviários. Após 1934, integra a equipe do arquiteto Luiz Nunes, iniciando a sua atividade como calculista de estruturas.

     O Calculista da arquitetura moderna

     A partir daí, a sua presença na Arquitetura Moderna Brasileira viria a ser identificada com três momentos marcantes e decisivos – episódios-símbolos da sua relação com a arquitetura – ocorridos em tempos e lugares distintos: “O movimento Pioneiro do Recife’, “O Conjunto da Pampulha-BH”, e “O Período de Brasília”. Em “Dois episódios da História da Arquitetura Moderna Brasileira”, o próprio Joaquim Cardozo chamou a atenção para “dois movimentos que, pela sua singularidade e expressividade, têm o mérito de caracterizar e fixar, de modo definitivo e iniludível, uma formação histórica, uma constante no tempo da nossa existência e evolução artística”. E analisa o que ocorreu entre 1934 e 1945 (5).

     O Movimento do Recife

     Ocorreu entre 1934 e 1937, sob a coordenação do arquiteto Luiz Nunes, inicialmente na Diretoria de Architetura e Urbanismo -DAU (1934/35), primeira instituição governamental criada no Brasil com essa finalidade. Além de Luiz Nunes e Cardozo, a DAU contou com a colaboração de Roberto Burle-Marx, que realizaria então os seus primeiros jardins públicos, dos arquitetos João Correia Lima e Fernando Saturnino de Brito, e de alguns alunos de Cardozo. A experiência foi interrompida pelo golpe de Estado de 37; o grupo desfeito, a DAU ficou praticamente extinta e Cardozo foi participar, como calculista, de grande parte dos edifícios.

     Numa aula de abertura dos cursos da escola de Belas Artes, em 39, exercendo a cátedra de Teoria e Filosofia da Arquitetura, Cardozo inicia a transmissão da experiência vivenciada na equipe da DAU: “ Tive a oportunidade de colaborar com arquitetos que chegaram a alinhar instintivamente a consciência perfeita do meio físico ao espírito tradicional, conseguindo, ao mesmo tempo, os melhores efeitos plásticos do concreto armado. ... Foram utilizados todos os elementos arquitetônicos novos, a cobertaterrasse, o pilotis, as janelas de grandes vãos, a cor como elemento modificador do espaço e da iluminação, a estrutura independente etc., assim como o emprego de estruturas especiais para a realização de formas puras, que somente com o concreto se pode realizar e que são soluções mais livres e perfeitas... E se procurou integrar os edifícios na paisagem...” “Os volumes e superfícies vazados, que antigamente eram resolvidos com as venezianas, foram criados agora com o emprego justo e adequado de um material pernambucano por excelência: o combogó, atuando nas fachadas muito isoladas, como verdadeiro ‘brise-soleil’, produzem desenhos caprichosos de sombra e luz, de bom efeito decorativo.” (6)

     Em 1935, a DAU, se fez representar na Exposição do Centenário da Revolução Farroupilha, em Porto Alegre, tendo Luiz Nunes projetado o “Pavilhão de Pernambuco”. Foram exibidas todas as obras e projetos e um grande número de maquetes. Segundo ele, essa mostra representa a primeira exposição de arquitetura moderna no Brasil. Cardozo participou de todas as fases da exposição.

     No curto período de funcionamento dessa Diretoria de Arquitetura, foi surpreendente a variedade, a qualidade, a coerência e a evidente significação social do conjunto da obra realizada. Calculadas por Joaquim Cardozo, estão a Escola para Anormais (Tamarineira), o Hospital da Brigada Militar, a Caixa d´Água de Olinda, a Escola Rural Alberto Torres, o Leprosário da Miroeira e o Pavilhão de Verificação de Óbitos (“Anatomia Patológica”, atual Pavilhão Luiz Nunes – Sede do IAB/PE).

     Como catedrático dos cursos de Engenharia e arquitetura, Cardozo ministra as disciplinas de Cálculo Infinistesimal, Geometria Analítica, Materiais de Construção, Economia e Finanças e Teoria e Filosofia da Arquitetura. Viaja em 1938 por alguns meses pela Espanha, França e Portugal. No final de 1939, ao paraninfar a turma de Engenharia, faz algumas críticas à orientação do governo estadual em relação a obras públicas. Imediatamente foi atingido por medidas repressivas do chamado Estado Novo, que determinaram a sua demissão. Muda-se para o Rio de Janeiro, passando a trabalhar diretamente com Rodrigo de Mello Franco, no Serviço do Patrimônio Histórico, fazendo amizade com Oscar Niemeyer.

     Episódio da Pampulha

     O segundo movimento é realizado por Oscar Niemeyer na Pampulha, em Belo Horizonte, entre 1941 e 1945, do qual Cardozo também participa, convidado por Niemeyer para os projetos estruturais e como companheiro de inúmeras viagens entre o Rio e Belo Horizonte.

     “Nesse conjunto da Pampulha o arquiteto Oscar Niemeyer começa a manifestar a sua ilimitada força de invenção, toda ela dirigida para o problema da estrutura; estrutura no seu aspecto formal e nos seus princípios de equilíbrio. Procura purificar a forma, retirando das estranhas posições de equilíbrio um conteúdo emocional que é, segundo o critério de muitos, o principal atributo da ‘beleza nova’.”

     “O uso freqüente das linhas curvas, no Cassino, na Igreja e na Casa do Baile, que se manifesta definitivamente na ‘forma aerodinâmica’... numa intenção de leveza, de desligamento do solo e das condições materiais, e mais ainda numa sugestão de efeito dinâmico. Compreendendo, já nessa época, que as imposições orgânicas a que está sujeita a boa arquitetura não definem categoricamente a sua formação; antes, deixam-na ainda indeterminada, ele alcança, partindo daquelas premissas indispensáveis, uma expressão mais pura, mais simples, mais fácil de ver, provocando também um movimento de admiração e surpresa.” (Cardozo, Dois episódios).

     
Conjunto da Pampulha representa um momento de grande importância na formação da Arquitetura Moderna Brasileira. Niemeyer soube explorar, com o seu talento, os princípios básicos do modernismo, interpretando-os e ajustando-os às condições ambientais e culturais brasileiras. A ele, Cardozo se integrou magistralmente, acompanhando-o à altura, no arrojo estrutural e refinamento formal, enriquecendo os riscos originais com detalhes construtivos indispensáveis para a nova arquitetura que surgia; uma arquitetura moldada em concreto, de formas ricas e livres, que rompiam com as dogmas do funcionalismo ortodoxo.

     Analisando essa arquitetura em artigo para o primeiro número da revista “Módulo”, Cardozo assinala que os novos efeitos alcançados no projeto da igreja da Pampulha, embora suscitem uma associação evidente com outras obras mais antigas – como arcos-parede de Mailart, abóbadas de Freyssinet e conjuntos de planos de Mendelsohn – “estabelecem um sistema de proporções harmônicas que lhes proporcionam um caráter estilístico contínuo e permanente”. E compara as formas criadas pelos ‘panos de concreto’ – “verdadeiras superfícies de formas e orientações variadas, participando de um espaço movimentado e quase mágico” – à expressão espacial do estilo barroco. Mas distinguindo deste, “que é irreal, composto de elementos postiços sobrepostos ou pendurados sobre uma estrutura de equilíbrio eminentemente simples”, enquanto na nova arquitetura “a realidade do equilíbrio é perfeitamente sensível, compreensível pelo menos, impondo-se sem qualquer efeito ilusório ou misterioso a relação entre carga e suporte”. (7).

     
O conjunto das obras destes dois episódios, somando-se aos outros exemplares também pioneiros do modernismo brasileiro, sobretudo o edifício do Ministério da Educação e Saúde, citado por Cardozo como “marco de partida da grande renovação”, definiu a nova imagem do Brasil no cenário internacional. A Arquitetura brasileira foi divulgada no exterior, inicialmente, na exposição “Brasil Builds”, no Museu de Arte Moderna de Nova York, em 1943, organizada pelos arquitetos Philip Goodwin e G.E. Kidder Smith, com fotografias deste último, tomadas entre maio e novembro de 1942, na viagem que a dupla fez pelo Brasil. As obras do Rio de Janeiro e São Paulo, os edifícios de Luiz Nunes no Recife e de Oscar Niemeyer, na Pampulha – calculados por Cardozo – integravam esse cenário pioneiro.

 

 



     No contexto do Rio de Janeiro dos anos 40, Cardozo estreita suas amizades com o “Grupo do Patrimônio”, freqüentando semanalmente a casa de Rodrigo, ligando-se, sobretudo a Oscar Niemeyer. Aproxima-se também do grupo de escritores pernambucanos residentes no rio, em especial João Cabral de Melo, que todos os dias ia ao seu escritório, Manoel Bandeira, Eustáquio Duarte e Evaldo Coutinho. Foi esse grupo que promoveu a edição do seu primeiro livro “Poemas”, com prefácio “admirável” de Carlos Drummond de Andrade, em comemoração ao seu cinqüentenário, em 1947. No Recife, a “Revista do Norte” também lhe dedicaria uma edição especial com alguns dos seus poemas e um ensaio de crítica sobre a pintura de Teles Júnior.

     Em seu escritório particular, no Rio de Janeiro, integrando a equipe do IPHAN, Cardozo, realiza estudos, emite pareceres e elabora projetos estruturais em várias cidades, tanto para obras novas como para recuperação e restauro de edifícios históricos. Participa, com a equipe do IPHAN, de um estudo sobre “Um tipo de casa rural”, das fazendas de café do estado do Rio de Janeiro, publicado como ensaio da “Revista do Patrimônio”, nº 7, de 1943.

     Período de Brasília

     Na sua relação com a Arquitetura Moderna Brasileira, Joaquim Cardozo ainda se identifica com um terceiro episódio, correspondente ao período da construção de Brasília, entre 1956 e 1964, da qual também participara desde o início, integrando a equipe de Niemeyer na Novacap como responsável pelos projetos estruturais de todos os edifícios monumentais.

     A partir de 1955, retomando as pesquisas estruturais iniciadas em Pampulha, numa atitude mais amadurecida, Niemeyer elabora a sua “nova arquitetura”. Um verdadeiro redirecionamento na maneira de conceber e de desenvolver o projeto, decorrente de avaliações sobre suas próprias obras do início da década e de reflexões sobre a longa viagem de Lisboa a Moscou, e em resposta à opinião da crítica internacional, após a II Bienal de São Paulo. Fatos que teriam influído bastante no processo de mudança e amadurecimento do grupo.

     Integrado por Niemeyer, Rodrigo de Melo Franco, Joaquim Cardozo, Marcos Jaimovich, Carlos Leão, Hélio Uchoa e outros, o grupo funda a revista “Módulo”, em 1955. Cardozo e Niemeyer também colaboram com o “Paratodos”, um quinzenário de cultura de curta existência (de 1956 a 1958) dirigido pelos irmãos Jorge e James Amado.

     A partir de 1956, dirigindo a Seção de Cálculo Estrutural do Departamento Arquitetura e Urbanismo da Novacap, uma equipe de cinco calculistas e doze desenhistas, a sua presença se intensificaria pela integração física e total envolvimento, seja pela mudança metodológica do arquiteto e pelo ritmo exigido pelo empreendimento. Os estudos de viabilidade construtiva e macroconcepção estrutural, o refinamento formal, a definição geométrica e o dimensionamento de cada forma e de cada peça estavam exigindo investigação imediata e, em certos casos antecipada, em que os casos mais complexos de concepção estrutural foram a cúpula da Câmara do Palácio do Congresso e a Catedral.

     Em alguns textos, Cardozo refere-se às dificuldades enfrentadas para resolver essas estruturas. Para a cúpula da Câmara, onde se deparou com o desafio de fazer um volume daquela grandeza parecer flutuar, apoiando-o numa laje, como se estivesse, apenas, tocando-a; pesquisou durante alguns meses os mais diferentes tipos de casca. Dominando inglês, alemão, russo e francês, teve acesso às mais recentes experiências e casos analisados e resolvidos por diversos autores, físicos e matemáticos, entre eles o finlandês Olavo Hellman e o russo I. Vorovich. Duas cascas dessa estrutura, o elipsóide de revolução, da parte de baixo, que se apóia na laje da esplanada, e a calota esférica que suporta as lajes planas da cobertura e do forro, são extremamente rebaixados, com uma relação flecha/corda de apenas ¼, o que exigiu muito esforço, muito tempo e muita audácia do calculista e sua equipe. Foram calculadas pela fórmula de Gravina, para esse tipo de casca. Cardozo pretendia realizar testes em modelos reduzidos para as mais complexas, tendo iniciado entendimentos com o laboratório de Engenharia Civil de Lisboa, o que não chegou a ser viabilizado devido aos prazos das obras. Nas outras, os desafios eram a esbeltez dos perfis e reduzidas seções dos pontos de apoio das colunas dos palácios de pórticos e da catedral. E o sentido de leveza a ser atingido pelas reduzidas espessuras dos bordos “em fita” das grandes lajes planas das coberturas.

     Nesse terceiro episódio, Cardozo exerce também importante papel como crítico e como teórico da arquitetura, influindo, num nível mais geral, no meio universitário. Fez conferências para arquitetos, engenheiros e estudantes, e publicou vários artigos. Uma produção teórica que não teve melhor aproveitamento de interpretação e mesmo de uso e está ainda a exigir uma edição especial. No final da década de 50, suas viagens para o Recife, geralmente de férias, sempre se revestiam de caráter acadêmico, como um professor visitante da então recém-emancipada Faculdade de Arquitetura, onde lecionavam alguns de seus ex-alunos. Aulas, passeios, palestras, rodas de conversa “para ouvir Cardozo”, quase todas promovidas pelo amigo, o professor José Maria Albuquerque, que tudo inventava para atraí-lo e colocá-lo como centro. De 1956 até 1973, Cardozo viria ao Recife algumas vezes como paraninfo, inclusive para uma cerimônia dos formandos de arquitetura, realizada no Seminário de Olinda em 1962. Em discursos nessa solenidade, o poeta- engenheiro dialoga com “o meu amigo, o Atlântico mar”, que lhe explica e lamenta pelas ressacas que destruíam, na época, trechos das praias de Olinda: “Joaquim, eu não tenho culpa!”.

     Não seria essa a única oportunidade em que o poeta dialogaria com os elementos da natureza. Sua obra literária está cheia dessas situações. “Senhor dos ventos e das chuvas”, assim chamado e admirado por Jorge Amado. E por Drummond, ao se encantar com a “Nuvem Carolina”. No “Congresso dos Ventos”, na várzea do Capibaribe, o poeta simplesmente dá a palavra aos “mais ilustres ventos da terra”. Com essa força anímica por ele criada também no “Capataz de Salema”, Luíza é a terra e o Capataz é o mar.

     Joaquim Cardozo levou uma vida solitária e de poucos amigos. Não casou nem teve filhos. Sua convivência com as mulheres que certamente amou, Marias, Luízas e Marianas... quase que se restringem ao que seus poemas revelam. E ao que é revelado em poemas de alguns de seus amigos, como João Cabral: ”É em Campos que Maria Luíza e ele ouvem a chuva sem camisa”.

     O Pavilhão da Gameleira

     Joaquim Cardozo aposentou-se como servidor público em 67, ao completar 70 anos. Permaneceu em atividade no seu escritório até 1972, realizando vários trabalhos de cálculo estrutural, inclusive para alguns edifícios de grande porte no Recife, convidado pelo arquiteto Acácio Borsoi. Trabalhava lúcido e tranqüilo até fevereiro de 1971, quando ocorreu a grande tragédia do desabamento do Pavilhão da Gameleira, causando a morte de 68 operários, em Belo Horizonte. Uma obra do governo estadual, projetada por Niemeyer e calculada no seu escritório. Com a vida transtornada, encerrou sua atividade como calculista. Não encontrava mais condições psicológicas para o trabalho. A tragédia o deixara profundamente abalado.

     No decorrer do inquérito e do processo judiciário, manipulados por inconfessáveis e gigantescos interesses econômicos e políticos, e utilizadas as mais sórdidas acusações com o deliberado objetivo de imputar-lhe a culpa pelo acidente, seu estado de saúde viria a se agravar, levando-o à irreversível depressão. Foi inicialmente condenado, em março de 1974, a dois anos e dez meses de prisão; seu advogado Evandro Lins e Silva, encaminhou recurso de apelação; ele foi posteriormente absolvido pelo Tribunal da Alçada de Minas Gerais.

     Em 1973 foi morar junto dos familiares, em Recife. Recebeu grandes homenagens e manifestações de solidariedade de instituições e entidades culturais e estudantis. Entre essas, certamente as mais gratas foram as dos formandos de Arquitetura e Engenharia de muitos Estados, que o escolheram como paraninfo. E ados arquitetos: foi eleito Sócio Benemérito do IAB e recebeu o Prêmio August Perret ¾ Mensão honrosa da UIA. Ao completar 80 anos, em 1977, doou sua biblioteca particular à Universidade Federal de Pernambuco. Foi ainda patrono de uma turma de Engenharia e concedeu algumas entrevistas à imprensa. Passou alguns meses ao lado do seu amigo Oscar Niemeyer, que o hospedou em hotel de Copacabana, retornando ao Recife no final de dezembro. Faleceu em 4 de novembro de 1978.

     Joaquim Cardozo foi um dos nossos valores mais genuínos, um grande mestre de múltiplo saberes; na verdade, um dos nossos maiores “mestres-de-obras”. Usando suas palavras, podemos definí-lo como arkitekton – principal operário – na sua significação originária.

     “Ao partir, após ter vivido a vida como bem poucos, deixa-nos imensa e preciosa herança. De agora em diante sua obra – a do poeta e a do engenheiro, do calculista de materiais – vai crescer a cada instante, liberta de qualquer contingência; o perfil do criador sem medo e sem limites se desvendará inteiro.” Jorge Amado

NOTAS


1 - DANTAS, Maria da Paz R. Joaquim Cardozo – Ensaio biográfico. Recife: fundação de Cultura Cidade do recife. 1985.

2 - Uma estrofe de Recife Morto. CARDOZO, Joaquim. Poesias Completas.Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1971.págs.15_18.

3 - D’ANDREA, Moema S. Um corte na tradição; A Tradição Redescoberta: Gilberto Freyre e a literatura regionalista. Campinas, SP Editora Unicamp,1992, pág.24.

4 - CARDOZO, Joaquim. Dois Episódios da História da Arquitetura Moderna Brasileira. Módulo. Rio de Janeiro,4, 1956, págs 32-35.

5 - CARDOZO, Joaquim. Aula de abertura dos cursos, 1239.

6 - CARDOZO, Joaquim. Arquitetura Brasileira, característi-cas mais recentes. Módulo, Rio de Janeiro:1. Mar. 1955, págs. 6-9.

*Arquiteto, formado em 1962 pela Faculdade de Arquitetura do Recife.Joaquim Cardozo paraninfou a sua turma e foi um dos examinadores na conclusão de seu mestrado na Universidade de Brasília, em 1965.

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