Cardozo, a equação do lirismo


   Felipe Fortuna


     O Recife poético é quase sempre associado a Manuel Bandeira e a João Cabral de Melo Neto – e, no entanto, Joaquim Cardozo (1897-1978) responde a um só tempo pela memória sentimental e por um lirismo marcadamente racional. Da estréia tardia de Poemas (1947), em que reuniu poemas da fase quase modernista, seu tom regionalista, sempre nostálgico, evoluiu para uma linguagem em que os registros da arquitetura e, especialmente, da matemática promoveram não apenas o poeta, mas o homem de idéias.

     Joaquim Cardozo é um poeta de referência – e essa etiqueta, além de ser provisória, não denota qualquer nuance pejorativa. Antes, acentua a importância e até mesmo a influência contemporânea de um escritor comumente tachado de bissexto. Quando o movimento modernista ainda se encontrava no período da opção folclórica, expressando um projeto nacionalista que cindiu a inteligentzia em duas vertentes políticas opostas, ele escrevia “As Alvarengas e “Recife de Outubro” em que, apesar de regional, exercitava uma dicção cosmopolita, distanciando-se do provincianismo a que se reduziu, por exemplo, a poesia de Menotti Del Picchia. Ao cantar sua cidade preferida (“Olinda, / Das perspectivas estranhas, / Dos imprevistos horizontes”), Joaquim Cardozo compunha uma ordem geométrica e cerebral da paisagem (a “luz redoma” ou a “luz espaço”, tal como a definiu João Cabral). Ainda nessa fase, em que o clandestino engajamento modernista se fazia com o trabalho de depuração e lucidez, ele anunciava os rumos de sua poesia. Num poema de 1939, ele já escrevia: “E espreita as sombras inimigas no corredor deserto / Onde as aranhas sábias construíram estruturas levíssimas”, em que a sucessão de substantivos adjetivados cria uma atmosfera de estranheza sobre o sono. Além disso, com suas metáforas, esse engenheiro calculista organizou um elenco de influência e imagens inéditas em nossa tradição literária.

     Isso porque Joaquim Cardozo possuía, embora fragmentada, uma ars poética aplicada à sua obra com o mesmo rigor de uma equação ao definir a forma do concreto. Em “Haiku”, por exemplo, ele propõe um princípio de concisão:

Como era: Botei um covo no
                  Fundo da gamboa.
                  No outro dia
                  encontrei um
                  telescopio
                  Cheio de estrelas.

Como deve ser: Cheiinho de estrelas
                           Na funda camboa
                           um covo:
                           Mas, um telescopio.

     Já em SIGNO ESTRELADO (1960), ele resgatava o soneto com versos que continham o soneto com versos que continham “rimas à esquerda, rimas interiores, assonâncias e quase-rimas, assim como certos efeitos de halo e de filtro poéticos que, a meu ver, ainda são rimas, embora já livres do formalismo dos fonemas”, o que lhe permitia configurar, em poesia, uma “arquitetura nascente”. Mais uma vez, foi esse poeta que melhor executou um projeto urgente á época, ou seja, o aparecimento do signo não-verbal. Estranhamente, Joaquim Cardozo jamais se fez elogiar pelos concretistas – que louvam o “Um Coup de Dês”, de Mallarmé, como poema que simboliza a morte do verso, e ignoram o “Poema de Eloi”, ou o magnífico “Poema Para Uma Voz e Quatro Microfones” em que o poeta recifense radicalizava os experimentos de simultaneidade, o uso significativo do espaço da página e explora recursos gráficos.


     A sua absurda omissão dos manifestos concretistas talvez tenha uma razão de ser, caso observada a seguinte tese Joaquim Cardozo é, no Brasil, quem efetivamente aproximou a percepção verbivocovisual da expressão poética, harmonizando sua prática com o domínio de mais de uma dezena de idiomas e da filosofia da linguagem. Nesse sentido, sua poesia, tanto pela base cultural, quanto pela realização, é largamente superior à de Oswald de Andrade – o mesmo que, naquele período, teve sua obra desastradamente aproximada de Joyce. Ironicamente, o respeito que os próprios concretistas nutrem pela poesia de João Cabral agrava essa inexplicável ignorância: pois, sob certa perspectiva, não se pode compreender a poética do autor de MORTE EVIDA SEVERINA (1955) sem se referir à de Joaquim Cardozo.

     Os pontos de contato entre os dois são evidentes, seja quanto à concepção do poema, seja quanto à consciência da linguagem. Mas pelo menos um poema assinala a dimensão exata dessa influência. Reza a lenda que os arcos do Palácio da Alvorada foram inspirados pelo salto triplo de Ademir Ferreira dos Santos. Para Joaquim Cardozo, que efetuou os cálculos matemáticos, a demonstração olímpica transfor--mou-se numa poema, “O Salto Tripartido”. “Havia um arco projetado no solo / Para ser recomposto em três curvas aéreas. / Havia um vôo abandonado no chão / À espera das asas de um pássaro”. João Cabral, ao analisar os movi--mentos de outro atleta e Ademir, Ademir da Guia, atingia o mesmo nível de análise, quase construtivista. E no poema “À Brasília de Oscar Niemeyer” ele conclui sobre as cons--truções: “Não se sabe é se o arquiteto / as quis símbolos ou ginástica”.

     No póstumo UM LIVRO ACESO E NOVE CANÇÕES SOMBRIAS (1981), Joaquim Cardozo resgata tradições nor-destinas, como a das cantadeiras e dos retirantes, ao mesmo tempo em que escreve os seus versos reversos, meditações de extrema complexidade na forma breve do heptassílabo. Porém, ainda está por merecer maiores leituras, estudos e discussões o poema “Visão do Último Trem Subindo ao Céu”, um dos pontos mais altos da poesia brasileira da natureza filosófica. O longo poema é a suma das preocupações estéticas de Joaquim Cardozo, e desloca-se de uma viagem real para um conjunto atordoante em que se misturam lembranças literárias e notações matemáticas que expressam a viagem entre a vida e a morte (“Às mortes sucedem as vidas; às chuvas sucedem as culturas”, ou então “O silêncio da vida dos homens passou./Agora começa o rumor da sua morte”).

     No silêncio em que costumava formar seus pensamentos, mas do qual raramente saía para distribuí-los, Joaquim Cardozo escreveu uma obra que é, sem exageros, e por mais de uma razão, revolucionária. Não seria sequer necessário buscar tal aspecto, vicio cansativo das vanguardas, quando é dada a chance de se ler um poeta que fundou um conceito de poesia. Para os que lhe exigiam maior militância, vale a pena consultar certo verso, escrito com alguma ironia: “E na explosão reside o acontecimento de uma flor?”.

     * Felipe Fortuna é poeta e ensaísta. Publicou OU VICE-VERSA (poemas).

     Este texto foi publicado no caderno Idéias, Jornal do Brasil, em março de 1987.


    

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