A lírica de um nordeste universal e erudito
Wilson Martins
Embora fosse desde 1922 “um dos autores pernambucanos mais representativos”, escreve César Leal no excelente prefácio dos Poemas selecionados” (Recife: Bagaço. 1996) Joaquim Cardozo (1897-1978) somente estrearia em volume com os “Poemas” de 1947, livro que, a essa altura, não teve praticamente nenhuma repercussão fora do seu estado. E sem repercussão nacional continuou pelas duas décadas seguintes, até que “Signo Estrelado” (1960) o revelasse como o grande poeta de gabarito universal que efetivamente era. Universal pela qualidade e também por tornar universal a temática da sua região, como os grandes compositores nacionalistas da mesma época.
Encarei-o então como um rhétoriquer, perito nas virtualidades técnicas do poema, enriquecidas pelas fulgurações emocionais da poesia. Era uma retórica de fundo intelectual e erudito, revelando, ao mesmo tempo, o temperamento apaixonado que a poesia brasileira contemporânea e posterior largamente ignorou: “para além dos exercícios literários e voltado para o futuro”, escrevi então, tratava-se, sem a menor dúvida, de uma personalidade de poeta (“Pontos de vista 4”).
Num ensaio de 1984 sobre as dimensões temporais da poesia”, César Leal observa que, “entre os poetas brasileiros, Cardozo foi o que mais se preocupou com o problema do Tempo, a partir das dimensões relativistas, entrópicas e quânticas” (“Entre o leão e o tigre. Breves ensaios sobre teoria e crítica do poema”. Recife: Fundação Joaquim Nabuco/Editora Massagana, 1988). É em composições gráficas como a simplesmente intitulada “Poema” ou como na “Visão do último trem subindo ao céu” que se revela a genuína inteligência matemática do engenheiro, a comparar com o “engenheiro” metafórico de João Cabral de Melo Neto. Porque, enquanto o último pretende acrescentar a engenharia ou a geometria à criação poética, Cardozo enriquece com substância humana a ciência das épuras geométricas.
E tudo isso sem perder a dimensão Brasil, que, diga-se o que se disser, é a dimensão emocional. É nos “poemas do Nordeste” que a arte de Joaquim Cardozo alcança o ponto culminante; a temática dos ventos, com a obra-prima indiscutível que é o seu extraordinário congresso, ou os “quadros de gênero”, como a “Aquarela” de Signo estrelado:
“Macaibeiras chovendo
Cheiro de flor amarela
Cheiro de chão que amanhece (...)”
É preciso ter saído à porta da cozinha, com o amanhecer ainda indeciso para sentir o “cheiro de flor amarela” e o “cheiro de chão que amanhece”... O grande poema do Tempo é, naturalmente, a visão do último trem – o que nos leva do Tempo para a Eternidade, que o anula: “O que fôra e o quem fôra/O que foi e o que era (...). Aí está toda a história da vida: O que passa e conta, o que faz ou fosse/Todo o universo é um só brinquedo de criança. “Sempre se fala na “Visão do último trem subindo ao céu”, escreve, ainda, César Leal, “como se fosse um poema dissociado do ‘Prelúdio e elegia de uma despedia’ e do ‘Canto da Serra dos Órgãos’ (...). No livro de Joaquim Cardozo, o ‘Prelúdio e uma canção de despedida’ apresenta, também, o tema da ‘desumanização’ já observado no ‘Congresso dos ventos’ (...). E o livro conclui com a personificação da Serra dos órgãos, quando a montanha narra o início de tudo o que ocorreu no planeta até o aparecimento da vida, do homem, e a profecia do seu fim, - o fim do homem – bem antes de outros seres vivos inclusive as aranhas e as formigas”.
Se a leitura simultânea de Joaquim Cardozo e João Cabral de Melo Neto revela as limitações poéticas deste último e os horizontes incoativos do primeiro, outra reflexão enriquecedora pode ser colocá-lo em paralelo com Cecília Meireles e respectiva incrustação na época modernista. Pertenceram ambos, à mesma geração cronológica e à mesma geração literária, sendo, por esses parâmetros, “poetas do Modernismo” – “verdade histórica e ilusão de perspectiva”, escrevi em 1982, “porque Cecília Meireles, mais moça na idade, é mais antiga como poeta, tendo, aliás, estreado duas vezes: em 1919 com ‘Espectros’, e, 20 anos mais tarde, com o ‘Viagem’”, o que se compara com as duas estréias de Joaquim Cardozo, em 1947 e 1960.
Em volume, como ficou dito, sua estréias foi tardia, a ponto de ter sido incluído por Manuel Bandeira na famosa “Antologia dos poetas brasileiros bissextos contemporâneos” (1946) , um ano antes dos Poemas. E bissexto continuou, porque, ainda nas palavras de César Leal, “a quantidade não é a força em que Joaquim Cardozo apoia a noção de permanência de sua obra no tempo. Tal força que repousa na qualidade é um valor inerente aos grande poemas” (v. também “Três gerações poéticas”, em “Pontos de vista 11”).
São assimétricas as suas relações tanto com Cecília Meireles quanto com o Modernismo. É menos entusiástica que a de César Leal a minha impressão do volume póstumo “Livro aceso e nove canções sombrias” (1981): os poemas aí incluídos, e escrevi então, são inferiores aos da antologia dos bissextos e às “Poesias completas” de 1971. Também os “Cânticos”, de Cecília Meireles (2ª ed., 1982) não correspondiam à sua estatura de poeta, tudo comprovando que as intenções piedosas das recuperações de papéis engavetados podem ter conseqüências pelo menos contraproducentes.
Pode-se pensar que Joaquim Cardozo pensava em incluir a poesia no tecido do pensamento científico contemporâneo, pois, tudo bem considerado, o tempo é uma realidade tão psicológica quanto matemática, mas não arbitrariamente imaginada. Ele via o Tempo no sol e na chuva, nas manhãs radiosas e nas noites estreladas e também nas flores e frutas do país natal.
Wilson Martins é crítico literário, autor de O Modernismo –Ed Perspectiva, entre outros.
O texto que aqui aparece foi publicado em O Globo, 19-7-1997, coluna Prosa & Verso.