A Joaquim Cardozo
Com teus sapatos de borracha
Seguramente
É que o seres pisam
No fundo das águas.
Encontraste algum dia
Sobre a terra
O fundo do mar
O tempo marinho e calmo?
Tuas refeições de peixe;
Teus nomes
Femininos: Mariana; teu verso
Medido pelas ondas;
A cidade que não consegues
Esquecer
Aflorada no mar; Recife,
Arrecifes, marés, maresias.;
E marinha ainda a arquitetura
Que calculaste;
Tantos sinais de marítima nostalgia
Que te fez lento e longo
(do livro O Engenheiro)
A luz em Joaquim Cardozo
Escrever de Joaquim Cardozo
Só pode quem conhece
Aquela luz Velásquez
De onde nasceu e de que escreve.
A luz das várzeas da Várzea
Onde nasceu, redonda,
Vem até o ex-Cais de Santa Rita
Que viveu: luz redoma,
Luz espaço, luz que se veste,
Leve como uma rede,
E clara, até quando preside
O cemitério e a sede.
Pergunta a Joaquim Cardozo
É que todo o dar ao Brasil
De Pernambuco há de ser nihil?
Será que o dar de Pernambuco
É suspeitoso porque em tudo
Sintam a distância, o pé atrás,
Insubserviente de quem foi mais?
(Do livro Museu de Tudo)
Na morte de Joaquim Cardozo
Creio que Joyce é que dizia
Que a Irlanda dele se comia
Comendo os filhos, como a porca
Que as crias melhores devora.
Estamos tão desenvolvidos
Que já podemos esse estilo
De fazer Dublin, Irlanda, Europa?
E um novo imitá-las, em porca?
(Do livro A escola das Facas)
Joaquim Cardozo na Europa
Ele foi um dos recifenses
De menos ondes e onde mais,
Que em lisboas, madrids, paris,
Andou no Recife, seus cais.
Como elas todas já sabia
Não foi turista ou visitante;
Não caminhou guias, programas;
Viveu-as de dentro, habitante.
A guerra não o deixou andar
Outras que também lhe eram íntimas,
Que conhecera no Recife,
Habitando-as no espaço-língua.
Confiou-me que se anda igualmente
No Cais do Apolo ou nos do Sena,
Que foi na Europa (não à Europa)
Como na Várzea ou Madalena.
(Do livro A Escola das Facas)
Cenas da Vida de Joaquim Cardozo
A tragédia grega e o mar do Nordeste
Chega o Nordeste de Setembro:
O inverno se foi, com seus ventos.
Tinham voz própria, me dizia:
Com as ondas longo discutiam.
Com o Inverno, acaba a temporada
De teatro, a de que ele não faltava,
Quando ainda engenheiro de campo
Arma, à noite, a tenda de pano.
Dizia ouvir, marés inteiras
Diálogos de tragédia grega:
O vento e o mar se apostrofavam
Com vozes aos berros, de raiva,
E com tal raiva, com tal nervo,
Que dispensava ler o texto.
Dizia sentir o tremendo
Da tragédia, seu argumento,
A que o murmurar dos coqueiros
Fazia o coro lastimeiro.
Na maré-alta, o pleito sobe,
Na maré-baixa, baixa e morre
O teatro desses personagens
Que entoavam vozes sem face
Seguiria seu ritmo, enchendo-o,
Subindo e caindo no silêncio.
Não é essa a curva das estórias?
Não é esse o trajeto da História?
(Não soube se escreveu tais peças.
Talvez, pensando melhor nelas,
Achasse ocioso pôr palavras
em formas vazias tão claras).
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Um poema sempre se fazendo
Muito embora sua obra pequena,
vivia escrevendo-se um poema:
Não no papel, mas na memória,
um papel de pouca demora.
Na memória, é fácil compor
todo o dia, seja onde for;
Sentado, escritor, numa mesa,
ou andando, entre a hora e apressa
De uma cidade que abalroa,
que exige de quem anda proa,
Onde quem anda é entre choques
ou se esgueira como quem foge.
Cardozo levava seu poema:
a poesia, não leva a pena
De fazê-la, a pena é abstrata,
é o fazer, re-fazer, guardá-la.
E nele vai sem romantismos:
nem o de vir de paroxismos
Nem o mais de moda e moderno,
de escalar fingidos infernos.
Ele vivia com seu poema
como outros vivem com sua crença:
A dele é o poema do momento,
Que leva sem mudar de gênio.
No Recife em todas as horas,
no Rio, (quem melhor o ignora)
Eis como escrevia, me disse,
O poeta que fez o Recife.
Assim, não deu trabalho aos prelos:
se sequer cuida de escrevê-los!
Se só se alguém lhe pede um poema
reescreve algum que ainda lembra.
O exilado indiferente
A esse recifense de praias
Obrigam-no a deixar seu mapa:
Outro pernambucano, truão,
(não é do grego Agamenão)
Disse que o não queria mais
no espaço de que é capataz.
Seqüestram-no amizades boas,
às carreiras, para Alagoas
E, dos Maceiós, num navio
vem viver federal, no exílio
(que ele habitaria sem queixa,
nunca de camarinha e mesa).
De calça e paletó e amianto,
ei-lo entre os cantados encantos,
Sem sentir que esse mar que o cerne
é o Atlântico do Nordeste:
De Guarabira, Pirangi,
Carne de Vaca, Serrambi.
Recifense, a um cria de engenho
Ditou as canas de seu tempo,
E impaciente, a um mestre-de-obras,
Que espera a planta há mais de uma hora,
Enquanto ele diz das finezas
Da poesia e escrita chinesas
“Qual, é inconcebível, meu caro,
no Rio, onde o último é o trabalho,
você quer preceder à antiga
Conversa de China e poesia”.
Não canavieiro Pernambucano,
Abria exceção para Campos.
É em Campos que Maria Luísa
E ele ouvem a chuva, sem camisa.
Viagem à Europa e depois
Antes da Guerra, fora à Europa
Bebeu-a até a última hora.
Por cá, a poesia é sempre o dengue
Do falso índio, homossensualmente
No Nordeste, Freyre e a reação
Para trazer a bola ao chão.
Mas é coisa de romancista,
Não de política, polícia.
Volta da Europa ao “Lafaiete”,
Como se inda ontem lá estivesse.
Escreveu três poemas na Europa:
Dois se apagaram na memória.
Compõe alguns poemas, ainda,
Mas quase todos viram cinza,
Porque, completados, ninguém
Colhe-os da memória onde os tem.
Eis talvez o melhor momento
Para ele, de seu desempenho;
A Polícia, na mira, o tem;
Mas no “Lafaiete” entretém,
E enquanto entretém, entretece
Em sinal mais, quem lá aparece:
É sem pregação, manifesto
(e o gesto só o vê que de perto);
sabe o gesto sábio e ambíguo:
é sempre com o mesmo sorriso
que devolve o mau poema-sim
e o fascista-sim porque sim.
Assim viveu até que o Truão.
Até que Oscar pôs-lhe nas mãos
botar Brasília em pé. Qual a moeda?
Deu-nos um novo Frei Caneca.
(Do livro Crime na Calle Relator)
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