Martins Júnior, Augusto dos Anjos, Joaquim Cardozo:
Presença da Poesia Científica na Literatura em Pernambuco

Delmo Montenegro

     “Nenhum homem é uma ilha”. A máxima de John Donne pode ser usada claramente para ilustrar uma das tendências mais fortes da literatura em Pernambuco: a forte presença da Poesia Científica. O cientificismo está presente em nosso genoma, em nosso código genético-literário, desde os primeiros momentos. Remonta a Bento Teixeira, já em 1601, na célebre passagem de sua Prosopopéia intitulada Descrição do Recife de Paranambuco, onde aspectos astronômicos, geológicos e até lingüísticos colaboram ricamente para construção do texto:

Pera a parte do Sul, onde a pequena
Ursa se vê de guardas rodeada,
Onde o Ceo luminoso mais serena
Tem sua influïção, e temperada;
Junto da Nova Lusitânia ordena
A natureza, mãe bem atentada,
Um porto tão quieto e tão seguro,
Que pera as curvas Naus serve de muro.

É este porto tal, por estar posta
Uma cinta de pedra, inculta e viva,
Ao longo da soberba e larga costa,
Onde quebra Neptuno a fúria esquiva.
Antre a praia e pedra descomposta,
O estanhado elemento se diriva
Com tanta mansidão, que ô a fateixa
Basta ter à fatal Argos aneixa.

Em o meio desta obra alpestre e dura,
ô a boca rompeo o Mar inchado,
Que, na língua dos bárbaros escura,
Paranambuco de todos ‚ chamado.
de Para’na, que é Mar; Puca, rotura,
Feita com fúria desse Mar salgado,
Que, sem no dirivar cometer míngua,
Cova do Mar se chama em nossa língua.

      Porém a figura principal para constituição desta linhagem poética foi José Izidoro Martins Júnior (Recife, 24/11/1860 – Rio de Janeiro, 22/08/1904). Formado em Direito pela Faculdade do Recife em 1883, Martins Júnior foi um dos representantes da chamada “Escola do Recife” (Tobias Barreto, Sílvio Romero, Clóvis Beviláqua, Artur Orlando, entre outros), autor de clássicos de nossa historiografia jurídica como Fragmentos jurídicos-filosóficos (1891), História do Direito Nacional (1895) e Compêndio da história geral do Direito (1898). Seu nome estará, entretanto, eternamente associado ao movimento da Poesia Científica, do qual foi o seu primeiro arauto e também o melhor teorizador. Indo além da influência de Victor Hugo e Baudelaire, Martins Júnior incorpora traços da poesia socialista-revolucionária de Lefevre, Berthezene, Stupuy, Mme. Arckemann e Sully Prudhomme, junto com os preceitos filosófico-científicos de Auguste Comte, Haeckel e Darwin, para compor o que pode ser considerado o primeiro manifesto de uma poesia “de vanguarda” – de concepção essencialmente cosmopolita – a ser praticado em solo brasileiro. É o que lemos em A Poesia Científica – esboço de um livro futuro (1883):

      “Os nossos literatos e poetas que hoje impugnam a poesia científica, ou têm de se sujeitar a ela dentro em pouco ou têm de desaparecer da liça. A lei da seleção permite que fiquem no campo apenas os mais fortes, isto é, aqueles que na luta descoberta por Darwin, a qual se realiza também na ordem moral, se puderem adaptar ao meio”.
      (...)
      “A Arte de hoje, creio, se quiser ser digna do seu tempo, digna do século que deu ao mundo a última das seis ciências fundamentais da classificação positiva, deve ir procurar as suas fontes de inspiração na Ciência; isto é, na generalização filosófica estabelecida por Auguste Comte sobre aqueles seis troncos principais de todo o conhecimento humano.
      É para mim um princípio assentado que ao estado definitivo de positividade a que chegou a mentalidade do homem civilizado, corresponde presentemente, no domínio do sentimento, esta escola de poesia a científica.
      Entendo que modernamente ela, a poesia, deve ser científica; mas científica debaixo deste ponto de vista, deste modo:
      - Sentindo o influxo da concepção filosófica do universo que domina em seu tempo; enunciando as verdades gerais que decorrem para a vida social dessa concepção; mas vestindo sempre os seus ideais com as roupagens iriadas das faculdades imaginativas, e nunca deixando de obedecer à emoção poética que dá nascimento à obra de arte.
      Ou antes: Quero a poesia contemporânea alimentando-se dos sentimentos filosóficos da nossa época, mas cantando-os, sem tratadizar (seja-me lícito empregar esse termo), no poema ou na ode, uma ciência particular ou uma ordem de conhecimentos especiais”.

      Infelizmente, este livro futuro, que se chamaria Evolução, nunca veio a lume. O que Martins Júnior deixou de concreto, como exemplo de práxis de suas concepções estéticas, basicamente está contido nos livros Visões de Hoje (1ª edição, 1881; 2ª edição, refeita com acréscimos e trechos refundidos, 1886), Retalhos (1884) e Estilhaços (1885). Apesar do fracasso na concretização de seu projeto literário, não podemos deixar de entrever em Martins Júnior algumas das mais fortes e originais imagens da poesia brasileira do século XIX (com força suficiente para influenciar poetas mais jovens, de grande gênio, como Cruz e Souza e Augusto dos Anjos):

Estendem-se no pó do solo os velhos cultos
Mitos fenomenais espalham-se insepultos
Numa grande extensão de esquálido terreno.
O ar é fino e puro; o espaço azul sereno.
Júpiter, Jeová, Osiris, Buda, Brahma,
Jazem no escuro chão sob esta lousa - a lama!

Como coisas senis, fossilizadas, negras,
Amontoam-se além as bolorentas regras
Da Bíblia, do Alcorão, do A Vesta e Rig-Veda.
Trôpegos, sem valor, curvos de queda em queda,
Fogem, na treva espessa, Adon, Moloque, Siva,
Ormud, Vichnu, Abriman, Baalath...

(De Síntese Política, In: Visões de Hoje. 2ª Edição. Pernambuco: Typographia Apolo, 1886)

Buscando demonstrar pela transformação
De uma simples monera a gênese do mundo
Orgânico; ensinando o dogma fecundo
Do progresso; afirmando a lei da seleção
E seu correlativo – a luta na existência!
Tentam reconstruir, fiéis à Experiência,
O vetusto castelo informe do Direito
Que precisa de ser, sob outra luz, refeito!

Vemos, aqui – Littré, Spencer, Buckle, Comte;
É a Filosofia alevantando a fronte.
Ali – Haeckel, Pasteur, Darwin, Lyel, Broca;
É a Ciência pura – a refulgente roca
Que serve à fiação metódica dos fatos
Ou feios como a morte ou belos como os cactos.

(De Síntese Científica, In: Visões de Hoje. 2ª Edição. Pernambuco: Typographia Apolo, 1886)

     O impacto da poesia de Martins Júnior sobre a poesia dos mais jovens, na época em Pernambuco, só tem paralelo com Tobias Barreto e Castro Alves. Provas disso são os inúmeros exemplos de Poesia Científica, que vamos encontrar publicados nos periódicos de Pernambuco entre 1885 e 1910, e a enorme comoção pública que foi a chegada do corpo e enterro de Martins Júnior, no Recife, em 1904 (conforme está documentado exemplarmente no livro editado por seu irmão, Henrique Martins, Martins Júnior (Post Mortem). Recife: Typographia do “Jornal da Tarde”, 1905, que reúne fotos, diversos discursos, poemas, depoimentos e matérias dos jornais da época). É inquestionável a influência da obra de Martins Júnior sobre o jovem paraibano Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos (Paraíba do Norte, 20/04/1884 – Leopoldina, 12/11/1914), futuro autor de Eu (1912), obra que – mesmo publicada quase 20 anos depois do florescer da Poesia Científica – representou a realização plena do ideal literário do autor de Visões de Hoje:

«Sou uma Sombra! Venho de outras eras,
Do cosmopolitismo das moneras...
Pólipo de recônditas reentrâncias,
Larva de caos telúrico, procedo
Da escuridão do cósmico segredo,
Da substância de todas as substâncias!

A simbiose das coisas me equilibra.
Em minha ignota mônada, ampla, vibra
A alma dos movimentos rotatórios...
E é de mim que decorrem, simultâneas,
A saúde das forças subterrâneas
E a morbidez dos seres ilusórios!

Pairando acima dos mundanos tectos,
Não conheço o acidente da Senectus
— Esta universitária sanguessuga,
Que produz, sem dispêndio algum de vírus,
O amarelecimento do papirus
E a miséria anatômica da ruga!

Na existência social, possuo uma arma
— O metafisicismo de Abidarma —
E trago, sem bramânicas tesouras,
Como um dorso de azêmola passiva,
A solidariedade subjetiva
De todas as espécies sofredoras.

(De Monólogo de uma sombra)

     
Sobre a questão das relações entre Martins Júnior e Augusto dos Anjos é fundamental a leitura do texto “Augusto dos Anjos e a Escola do Recife”, de autoria de Flávio Sátiro Fernandes – palestra proferida no Conselho Estadual de Cultura do Estado da Paraíba, por ocasião das comemorações do Centenário de nascimento de Augusto dos Anjos, em 1984.
      As relações entre Poesia e Ciência sofrem uma nova guinada a partir do Modernismo. Novos pressupostos ideológicos e estéticos modificam a forma desta relação, contudo ela ainda permanece como parte do núcleo rígido da tradição literária pernambucana. A Poesia Científica ganha novas roupagens nas obras dos modernistas Benedito Monteiro, Vicente do Rego Monteiro (Recife, 19/12/1899 – Recife, 05/06/1970) e Joaquim Cardozo (Recife, 26/08/1897 – Olinda, 04/11/1978).
      Todos os três artistas mantêm relações muito próximas. Benedito Monteiro e Joaquim Cardozo, ainda adolescentes, chegaram a cursar juntos o Ginásio Pernambucano e a fundar o jornal cultural O Arrabalde. Posteriormente, começam a fazer parte do “cenáculo” da Esquina Lafayette, do grupo que se reunia no Café Continental em torno da figura de José Maria de Albuquerque e Mello, então editor da Revista do Norte (um dos principais órgãos de divulgação do Modernismo em Pernambuco, que circulou em três séries: de 1923 a 1925, em 1926 e de 1942 a 1944. Curiosamente, existiu antes uma outra Revista do Norte, editada em Recife, em 1887, redigida por Martins Júnior, mais Artur Orlando, Adelino Filho, Pardal Mallet, entre outros. Teve certa duração, pois Souza Barros, no seu livro A Década de 20 em Pernambuco, informa ter encontrado na Biblioteca Nacional dois exemplares desta revista – os números 2 e 5 – datados do ano de 1891). Vicente do Rego Monteiro e Joaquim Cardozo teriam posteriormente um grande elemento em comum: João Cabral de Melo Neto. Podemos encontrar nitidamente na obra destes três grandes (e injustiçados) escritores do nosso primeiro Modernismo a continuação da veia aberta por Martins Júnior de um cientificismo poético, associado à arte de vanguarda e ao cosmopolitismo, dentro da tradição da literatura em Pernambuco.
     Observemos agora estes dois poemas de Benedito Monteiro:

                         O POEMA DA BOLSA

A bolsa de mercadorias. As oscilações do mercado.
A curva logarítmica da queda da arroba do açúcar.
Os magnatas sentados pelas mesas
esperando o pregão dos corretores
Os especuladores baixistas esperando vender a prazo
para revender depois.
Os negócios firmes altamente perigosos.
Os corretores, correntes elétricas entre as diferenças
de potencial da oferta e da procura
Ah! A aristocracia dos senhores de engenho,
açúcar de 2 cruzados.
A democracia dos fornecedores de cana
e donos do burguês, açúcar de 11$600.
- 11 Horas!
- O pregão!
- Vendo 4.000 sacos de cristal a 12$900
para entrega em dezembro!
- Compro a 12$000!
E a batalha incruenta está travada
com o derramamento do sangue loiro das esterlinas!

10 - 1000 - 1 000 000

Knock out. Forças estranhas.
Socos de 75 quilos. 6 1/2 . 6 7/8
O Califa... A besta...
No conjunto das impressões se abismam.
O movimento retrógrado. A self-induction.
A reação. O peso morto. A carne frigorificada.
O pulsar dos motores dos hidro-aviões.
Os carburadores. As carretas. Os cilindros.
O lirismo dos cilindros em estrêla.
O zum-zum longínquo das hélices.
6.000 rotações por minuto.
As grandes linhas internacionais.
Paris, Dakar, Buenos Aires - Punta Arenas.
Seatle. As Aleutas.
Raid à volta do mundo.
Integrei-me. Explicitei-me.
Eu era uma função implícita.
Respiro os ambientes de petróleo.
Bebo as paisagens de 100 milhões de hectares.
As retinas vêem os fooes de 1.000 kilowats.
As retinas vêem a música silenciosa das catástrofes.

(extraídos de BARROS, SOUZA. A Década de 20 em Pernambuco (uma interpretação). Rio de Janeiro: Editora Acadêmica, 1972).

     É nítido nesses poemas o traço da influência de Whitman e Marinetti. Não podemos conjeturar sobre o que seria o futuro literário de Benedito Monteiro (Benedito morreu jovem, com apenas 26 anos de idade). Entretanto, podemos dizer que o poema de Joaquim Cardozo Visão do Último Trem Subindo ao Céu potencializa tudo o que poderíamos esperar de um leitor eficaz de Whitman. É importante salientar que Visão do Último Trem Subindo ao Céu também guarda conexões profundas com o poema simultaneísta de Blaise Cendrars e Sonia Delaunay Prose du Transsibérien et de la Petit Jehanne de France (1913). Basta que se coteje em amplitude estes dois magníficos textos:


 

J’ai vu
J’ai vu les trains silencieux les trains noirs qui revenaient de l’Extrême-
     -Orient et qui passaient em fantômes
Et mon oeil, comme lê fanal d’arrière court encore derrière ces trains
A Talga 100.000 blessés agonisaient faut de soins
J’ai visité les hôpitaux de Krasnoiarsk
Et à Khilok nouus avons croisé um long convoi de soldats fous
J’ai vu dans les lazarets des plaies béantes des blessures qui saignaient à
     pleines orgues
Et les membres amputés dansaient autour ou s’envolaient dans l’air rauque
L’incendie était sur toutes les fances dans tous les coeurs
Des doigts idiots tambourinaient sur toutes les vitres
Et sous la pression de la peur les regards crevaient comme dês abcès
Dans toutes les gares on brûlait tous les wagons
Et j’ai vu
J’ai vu des trains de 60 locomotives qui s’enfuyaient à toute vapeur pour-
     chassées par les horizons em rut et des bandes de corbeaux qui s’envo-
     laient désespérément après
Disparaître
Dans la direction de Port-Arthur

(De Prose du Transsibérien et de la Petit Jehanne de France)

O trem transpõe, travessa, vencendo a barreira do som.
Tudo agora é silêncio (ruído branco?)
Não corre mais, nem voa; nem vacila ou flutua;
Firma-se, geometriza-se na geodésica do mundo,
No seu orientar-se pelo eixo do tempo.

Do vértice da luz vai para o futuro aberto em cone.
                                         e deixa em cone o passado fechado em sombra.
Por toda parte, e externo, e entorno domina o alhures
                                        e dentro deste, em morte, a região de Nenhures.
                                        Pais de Nenhures: o Inferno!
O trem vai sempre bem perto do inferno, dele sempre junto e separado,
Sem tocá-lo; nem no leve, nem no infinitamente   leve
                                                                          pequeno

Prossegue no seu veloz descendo
                                                     subindo ao céu.

(...)

Nas vidraças do trem batem todos estes signos
Numa tempestade de zeros!
Na sua voracidade de guardar as cousas que se somam
E de anular as que se multiplicam.

Agora, de novo, os vidros estremecem
A um cataclismo de unidades:

Na sua atividade de conservar as cousas que se multiplicam
E de inverter as que as dividem.
O que soma, o que anula, o que multiplica
O que inverte, o que corresponde, o que transita
O que se perverte, o que se prolonga, o que se destrói
São rajadas vindas ainda do chão limitado e raso
Da consciência dos homens.
O trem passa, e se mantém impassível...
gravita, permanece numa linha extremal do mundo,
Na geodésica de um pseudo-espaço de ¿ Finsler ?
Os passageiros sorriem:
Das coisas que se anulam ou se multiplicam

                                                         ações
                                                        massas
Das que se aparecem e se escondem   forças   ocultas
                                                       energias

Os passageiros perderam a noção do Zero e do Um
                                        (Do caos e da criação)
Assistindo pela última vez a esse brinquedo de esconder
Esse Jeu de Marelle saltando num só pé entre dois infernos.

             transforma
O trem                     a muralha do som.
              transpõe

(De Visão do Último Trem Subindo ao Céu. In: Trivium, 1970)

     Vicente do Rego Monteiro é um estranho caso de poeta. Mais famoso na França do que no seu próprio país. Ganhador de prêmios importantes, como o Prêmio Guillaume Apollinaire (em 1960, pelos sonetos reunidos no livro Broussais - La Charité), citado por autores como Gaston Bachelard (trechos de Vers sur Verre estão em La Poétique de l’Espace), com o seu trabalho colocado entre os nomes importantes da literatura francesa do século XX, surpreende-me até o hoje o descaso do Brasil para com a obra deste genial inventor. Como exemplo disto bastaria apenas o conhecimento de uma obra como Concrétion, de 1951, para antecipar em pelo menos cinco anos o surgimento da Poesia Concreta entre nós.
     Existe uma relação formal entre as obras de Joaquim Cardozo e Vicente do Rego Monteiro que precisa ainda ser desvendada. Conforme pude perceber através do acesso a Coleção Joaquim Cardozo (formada pela biblioteca pessoal do poeta, cujo acervo foi doado a Universidade Federal de Pernambuco), havia uma forte ligação de amizade entre os dois, a notar-se pelas dedicatórias dos livros que Vicente lhe ofertou (como exemplo: Mon onde était trop courte pour toi (1939-1941). Paris: Pierre Seghers Editor, 1956. Exemplar nº 20 com a seguinte dedicatória autografada: “Pour Joaquim Cardozo / “MON ONDE ETAIT TROP COURTE POUR TOI”/ en toute amitié / Vicent Monteiro / Recife le 1º/12/57”). Com certeza, muitas das transformações ocorridas entre o Joaquim Cardozo de Poemas (1947) e o de Signo Estrelado (1960), Mundos Paralelos (1970) e Trivium (1970), devem-se a leituras atentas de poemas como esses:

CHRYSAPODETIOLOGIQUE

HEXAPODE chrysalide
léthargique
Trimégiste tétrode
magnétique
Barbare cathode
promise au triode
hexode cacophonique

Dans le dédale
et cyclique remontoir
de l’unisson
cafard libertaire
l’essuie-cheminées
étiologique
sténographie les pages
rayées
de l’horizon

Par la fenêtre occidentale
se précipitèrent
dans la pupille
de la lampe électrique
les destinées latitudinaires
et l’inexplicaple musique
densimétrique
qu’um nuage sans nuage
renoua

(Mon onde était trop courte pour toi (1939-1941). Paris: Pierre Seghers Editor, 1956)


POEME CYLINDRIQUE EN SPIRALE

Des cercles coupés
                          par le diamètre
élèvent des perpendiculaires
jusq’à la coupe de la sphère
Leurs prolongements
                          atteignent l’ellipse
et produisent les rayons vecteurs
                          P S E
L’hyperbole repréntée par
                          sa courbe
en spirale prend sa véritable
                          grandeur
par le dépassement du lointain
                          horizon
point de précipitation des
                          paralaxes
Saturée de profondeur
elle abandonne l’apparence
pour reprende sa véritable
                          forme
Forme réelle sans conformité
avec sa position distance ou
                          substance
(Mon onde était trop courte pour toi (1939-1941). Paris: Pierre Seghers Editor, 1956)


S.O.S.

VOUS Mégohm et vos
                          deux cents mille ohms
qui vous échauffez au
                          passage des ondes
pour réduire la tension
                          des cathodes
Assistez-moi de vos
                          yeux magiques
de vos compensateurs
                          antifading
de vos cadrans lumineux
aux vitesses micrométriques
de vos fréquences et kylocycles
pendant ma longue traversée
de la zone du silence
afin que je puisse atteindre
le pays sonore de la Poésie
                          Instantanée

(Mon onde était trop courte pour toi (1939-1941). Paris: Pierre Seghers Editor, 1956)

     Coube a Joaquim Cardozo a difícil tarefa de realizar a síntese de quase um século de Poesia Científica, realizando aquele que seria o maior de todos os poemas do gênero conseguido até o presente: Visão do Último Trem Subindo ao Céu. Este poema na verdade é apenas a parte intermediária de um poema ainda maior e mais complexo, chamado Trivium (1970), composto por Prelúdio e Elegia de uma Despedida, Visão do Último Trem Subindo ao Céu e Canto da Serra dos Orgãos. Devemos ao trabalho incansável da pesquisadora Maria da Paz Ribeiro Dantas as melhores análises que dispomos até o momento destes poemas, que estão nos seus livros O mito e a ciência na poesia de Joaquim Cardozo (Rio de Janeiro: José Olympio, 1985) e no recém-lançado Joaquim Cardozo – contemporâneo do futuro (Recife: ENSOL, 2003). Porém o caminho continua aberto para muitas outras interpretações, Joaquim Cardozo continua sendo a nossa esfinge, nosso ápice a superar dentro de uma tradição irremediavelmente incorporada a literatura de Pernambuco, a literatura do mundo, as línguas de fogo do Universo:

Harmonia do equilíbrio!
Cega dinâmica embaraçada entre linhas
                                             De força magnética!
Em hélice seguindo e refletindo: dança de eléctrons e prótons
Matéria-mater do mundo.
Poeira do sol, poeira do som, poeira da luz
Poeira!
Poeira da memória, da memória dos homens
Que irá se perder um dia no universo
– Cada átomo possui um número infinito de partículas
– Cada partícula um número infinito de partículas
– Cada partícula de partícula um número...

Poeira de ausências e lembranças: poeira do tempo-matéria.
                                             corpúsculos
É desse pó luminoso, manto luzente de
                                             crepúsculos

Que são feitas as ondas e as partículas
Num torvelinho de moídos corpos simples:
– Farinha de energias finíssimas e raras –
Selênio, Rubídio, Colúmbio, Germânio,
Samário, Rutênio, Paládio, Lutécio
– Um manto tecido de belas palavras.
Matéria! fascinante matéria!
Poliedro de mil faces, fazendo-se, se refazendo
e a angústia do mundo nele sufocada.

O trem se encontra envolto nas névoas
Dos cintos de Allen – o visível se contrai –
– Névoa que da terra é mortalha –
Difusão agitada pelo vento solar,
Atmosfera de minúsculos, origem
da unidade da matéria / em conflito
Em busca das suas transmutações eternas
À procura de ser o que é vário e variável
De ser o que é, e de ser sem poder.

Nuvem, nuvem nos abismos atômicos
Crivo: volume penetrado de furos, esponja radioativa.
Mércurio da matéria unitária – Heraclítico fogo,
Nuvem do fogo, substância subexistente.

Aurora boreal que a terra envolve, emoldura
A paisagem total de toda a vida terrestre.
Ouve-se através das vidraças o rumor do sopro solar
E a tempestade que ruge atirada, lançada do Oeste.

Dos cinturões de Allen uma sugestão se ergue:
Na memória das pessoas que vão no trem fugindo:
Longe, muito longe demais, mais do que demais
Brilha na solidão uma claridade-pensamento:
Sobre as águas de um encrespado azul,
Do azul de um lago,
Uma vela isolada
Enfunada pelo sopro leve
De um vento doce e leal.

(De Visão do Último Trem Subindo ao Céu. In: Trivium, 1970)

Delmo Montenegro
Poeta, tradutor, ensaísta pernambucano.
Autor de Les Joueurs de Cartes – Os Jogadores de Cartas (Edições Bagaço, 2003).
Prepara atualmente a reedição das obras de José Isidoro Martins Júnior (1860-1904),
arauto primeiro da Poesia Científica no Brasil.

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 Rede de Idéias                           Editora: Maria da Paz Ribeiro Dantas. Colaboração especial: Douglas Tabosa de Almeida                                      .