Carlos Drummond de Andrade
Para o livro Poemas. Agir, 1947.
Prefácio
Este livro reune todas as poesias de Joaquim Cardozo, escritas de 1925 a 1947. São quarenta e três, apenas. Justifica-se, pois, o título de “poeta bissexto”, que ao autor conferiu Manuel bandeira, sabido como bissexto é, essencialmente, o poeta de produção raríssima. Já foge à classificação, contudo, no que toca aos temas de sua necessidade, que não são os típicos do poeta escasso: a dor amorosa (uma delas, particularizada) e a vida corriqueira. Os temas de Joaquim Cardozo são, antes, a Província e o Espírito.
A província aparece a Joaquim Cardozo, nos idos de 1925, revestida daquela realidade pitoresca que se diria o único elemento , na massa das coisas, suscetível de interessar a visão modernista, então vigente. Alvarengas do porto, velhas ruas do Recife, suas pontes e edifícios públicos, igrejas de Olinda, chuva de inverno, mangue, cajueiros, engenhos, guerra holandesa - aí está um bom material para se fabricarem muitos poemas ao gosto da época, deliberadamente nacionalista e naturalista, em relação à fria impessoalidade de parnasianos helenizantes e mesmo à bruma flamenga dos post-simbolistas. A poesia modernista foi, em grande parte, uma poesia de região, de município e até de povoado, que se atribuiu a missão de redescobrir o Brasil, considerando-o antes encoberto do que revelado pela tradição literária de cunho europeu. Os nomes das pequenas cidades brasileiras figuraram pela primeira vez em verso; a fala do povo incorporou-se à linguagem, erudita da poesia. “Tão Brasil!” – exclamava nosso poeta máximo, precisamente no ano da graça de 1925. Mas esse excesso de Brasil corria o risco de degenerar simplesmente em excesso de pitoresco, de tal modo o particular se substituía ao geral, na sofreguidão dos revolucionários, marcados ainda por uma tendência pulverizadora ao humorismo.
Inclinado à solidão pelas exigências do temperamento, Joaquim Cardozo foi, porém, modernista mais ausente do que participante. Se refletiu as inquietações de época e de grupo, fê-lo sem a passividade que em outros poetas daquela fase excluiria qualquer reivindicação do indivíduo. Um aparelho severo de pudor, timidez e autocrítica salvou-o das demasias próprias de todo período de renovação literária. E permitiu-lhe dedicar às coisas pernambucanas enfim admitidas no campo da poesia uma contemplação que não se deliciava na superfície, buscando penetrá-las no seu significado ou no seu mistério. Assim, a pintura das alvarengas paradas ou em movimento no velho cais do Apolo, sob o sol das cinco horas que acende um farol no zimbório da Assembléia Legislativa, deixa de ser um quadro meramente impressionista. O poeta sabe de onde vêm esses lanchões:
Vêm de longe, dos campos saqueados
Onde é tenaz a luta entre o Homem e a Terra,
Trazendo nos bojos negros,
Para a cidade,
A ignota riqueza que o solo vencido abandona,
O latente rumor das florestas despedaçadas.
.................................................................................
Vão seguindo, negras, jogando, cansadas
e seguindo-as também em curvas n’água propagadas
a dor da terra, o clamor das raízes.
Divisando por trás da província sua realidade humana, suas particularidades históricas, sua economia e seu pathos, Joaquim Cardozo consegue oferecer-nos panoramas ao mesmo tempo preciosos e abstratos, visões de alto poder plástico e não obstante puras visões, criação do poeta por meio de palavras:
Recife,
Ao clamor desta hora noturna e mágica,
Vejo-te morto, mutilado, grande
Pregado à cruz das novas avenidas.
E as mãos longas e verdes
da madrugada
te acariciam.
A passagem do tempo ao longo da poesia de Joaquim Cardozo não o enfastia dessa província assim liricamente interpretada. Pelo contrário. O poeta maduro conserva-se fiel às imagens que o impressionaram ainda jovem, mas com essa fidelidade de amante inventivo, que renova, pela aplicação e pela experiência, as graças do objeto amado. Assim, os aspectos de determinada rua ou engenho dissolvem-se na impressão simplificadora de toda uma região cuja natureza o poeta, já agora, reduz ou evoca nos termos mais gerais:
Sobre o capim orvalhado
Por baixo das mangabeiras
Há rastros de luz macia:
Por aqui passaram luas,
Pousaram aves bravias.
.................................................................................
Asa e flor do azul profundo,
Primazia do mar alto,
Vela branca predileta;
Na transparência do dia
És a flâmula discreta.
És a flâmula ligeira
Cortando a lã dos carneiros,
Ferindo os ramos dourados;
Chama intrépida e minguante
Nos ares maravilhados.
.................................................................................
Janelas sobre a esperança
Paisagem, profundamente.
“Paisagem, profundamente!: eis o nordeste, quase irreconhecível pela transformação artística, de Joaquim Cardozo. Um nordeste que concilia o tão apregoado (e risível) antagonismo estético entre nortistas e sulinos: aqui a subterrânea complexidade, ali o pitoresco elementar. A poesia de Cardozo, extremamente civilizada, é dócil aos mais secretos murmúrioa da alma nordestina. É, também ela, “flâmula discreta”, “lâmina ligeira”.
E aqui, por um deslizar espontâneo de idéias, chegamos ao segundo e principal tema de Joaquim Cardozo, ou, se atentarmos bem, ao seu tema exclusivo: o Espírito. De fato, pode dizer-se que de qualquer verdadeiro poeta que a vida inteira ele desenvolverá um tema único, que é o seu próprio, e que se confunde com a sua natureza e o seu entendimento pessoal das coisas humanas.
Esse tema sofrerá um sem número de variações, e exposto sob formas diferentes parecerá diverso, tão diverso quanto os sucessivos objetos a que se aplique a visão poética do autor. Tais objetos, é sabido, não interessam em si, senão pelo fundo de valores jacentes que façam subir à tona dos versos, ou como ponto de referência para a meditação poética que autor tentará infindavelmente, embora a saiba sincopada, fugitiva, descontínua, evanescente e, quase sempre, irredutível ao vocábulo. Jean Hytier, por sinal, chama de pretextos o que comumente chamamos de temas: “O pretexto nada tem de poético em si mesmo, porém, qualquer pretexto pode tornar-se poético se o fizermos capaz de trazer uma satisfação do tema... Tudo, em rigor, pode ser pretexto, e a originalidade de certos poetas tem consistido menos na nuança afetiva dos temas retomados por eles do que na sua aptidão para descobrir nos objetos, banais ou raros, pretextos ainda inexplorados.” Mas enquanto Hytier considera propriamente temas “as grandes direções da afetividade profunda”, como a aspiração ao eterno, a sede de fraternidade – sentimentos esses em número relativamente restrito -, é possível, talvez, chegar à concepção de um só tema, identificado com a pessoa mesma do poeta, ou seja, a própria visão física e metafísica do mundo, que cada poeta leva consigo. Assim, no poeta deste livro, e notadamente no poeta que se formou através desses vinte e dois anos, é o próprio espírito que oferece a Joaquim Cardozo situações de poesia, com o seu exercício cada vez mais desembaraçado sobre o universo das formas. E essa poesia se constitui menos das coisas poetizadas do que da própria ótica poetizadora de Cardozo. A que se reduzem afinal as coisas? São
Figuras do vento
Nos ares divinos
São finos cabelos
Na luz. Movimento
De puras miragens,
Imagens, modelos
De formas vazias;
São asas difusas,
São vôos imensos,
Perdidos no espaço
Por noites e dias.
Essa ondulação irreprimível, esse esvoaçar do vento pelo livro a fora, esses “cavalos ligeiros” cuja estrutura é constituída de espuma oceânica, essas “nuvens em torvelinho”, o incessante compor-se e recompor-se de um mundo mais contemplado do que vivido – não assinalam caráter de “coisa mental” da poesia de Joaquim Cardozo, que repara desde logo no fugitivo das figuras e nelas se compraz em estabelecer outro jogo além do jogo natural que lhes é próprio – um jogo do poeta com o mundo, ou do poeta consigo mesmo, através do mundo?
Comparo, combino, arrisco,
Passagens procuro a esmo
Sobre o profundo intervalo
Que vai de mim a mim mesmo.
Intelectualismo, e por certo não isento de sensualidade, como de resto no caso hoje clássico do autor de Charmes, - a quem Cardozo se liga por mais de uma afinidade – que imagina o despertar do poeta, logo solicitado pelas maitresses de l’ame, Idées – courtisanes par ennui, tecedeiras de uma trama frágil, e que ele vai rompendo: et vais cherchant – dans ma forêt sensuelle – les oracles de mon chant.
Espectador sensível da máquina do universo, o que o interessa é, por fim, um resultado intelectual:
As coisas se estão reunindo
Por detrás da realidade.
Serão freqüentemente coisas dramáticas, e a mesma província, já o sabíamos, é dramática. Nomes diletos de lugares de infância, de família ou de grupo, ainda que considerados intelectualmente no seu valor estético, podem gotejar tristezas:
Camarupim, Mamanguape,
Persinunga, Pirapama,
Serinhãem, Jaboatão;
Cruzando barras de rios
Me perdi na solidão.
E a realidade social, por sua vez, é a de que estamos participando, como atores ou vítimas, o poeta inclusive, que a reflete, se é que não a julga, em “O soldado” e “Os anjos da paz” – dois poemas dos maiores de nossa poesia atual, contribuição corajosa de um poeta “puro” à superação das dores do seu tempo. Mas, ainda aqui são as soluções do espírito que se ajustam às soluções emotivas do indivíduo ou da multidão. Até mesmo para um poeta “puro” a injustiça e a crueldade não podem lavrar impunemente sobre a terra. E os mitos do poeta jamais serão mitos sangrentos. Assinale-se apenas como a inspiração de fundo social encontra aqui uma expressão estética isenta de qualquer ganga, de tal modo a poesia de Joaquim Cardozo é fiel a si mesma ainda quando mergulha na angústia.
Entre “Poesia em homenagem a Isidore Ducasse” e “Os Anjos da Paz” há um intervalo de sete anos (1938-1945), indicando um aparente desinteresse de Joaquim Cardozo pela realização poemática. Na verdade, esse período não terá sido de aridez, mas de aprofundamento, avaliável pelo requinte formal dos poemas que se lhe seguiram, de uma tão enganadora simplicidade, nos seus balanços rítmicos tradicionais.
O tempo enfim cristaliza
Em dimensão natural;
Mas há demônios que arpejam
Na aresta do seu cristal.
E por demônios entendam-se os poderes do poeta, cada dia mais precisos, à força de se concentrarem – e se limitarem. Qualquer louvor ao caráter estritamente poético dos últimos versos de Joaquim Cardozo seria infantil; eles são, por vezes, a poesia “quase”, tal como qualquer um de nós, oficiais do mesmo ofício, amadores ou leitores, desejaria fazê-la. São, em certos trechos, a concreção do inefável. Espumas do mar, sim; mas
Nesse fogo verde
De cinza tão branca
Que se apure um mel
De brilho sem par.
O mel está apurado; Joaquim Cardozo completou cinqüenta anos, boa idade para poetas.