João Denys Araújo Leite
O Brasil é um país endividado em potência e ação. Como um bom devedor diz que deve e paga quando Deus puder ou quiser. Como mau devedor diz que paga para não pagar. As dívidas são justificadas por uma ala de escleroses múltiplas e de descasos. Descasos conscientes, descasos por ignorância, descasos por despeitos, descasos por intrigas pessoais ou ideológico-partidárias. As espécies e gêneros de dívidas vão dos econômicos-sociais aos caminhos do pensar e do fazer artístico. Com os nossos poetas, criadores, artistas e artífices, as dívidas são incalculáveis e remontam ao século XVI. Joaquim Cardozo, vivo entre nós, com sua obra dramatúrgica, é de um esquecimento lastimável. Os críticos e historiadores de teatro brasileiro não tocam no assunto ou não têm capacidade de entender a riqueza, originalidade e beleza de sua obra teatral.
O Teatro Moderno em Pernambuco (1966), de Joel Pontes, não cita o poeta, no Moderno Teatro Brasileiro (1975), de Gustavo A. Dória, muito menos. A Pequena História do Teatro no Brasil (1980), de Mário Cacciaglia, também não dá espaço para Cardozo. Nas 535 páginas de História do Teatro Brasileira: de Anchieta a Nelson Rodrigues (1996) de Edwaldo Cafezeiro e Carmem Gadelha, o teatro feito no Nordeste brasileiro nem existe. Na página 84 de O Teatro Brasileiro Moderno (1988) escrito por Décio de Almeida Prado, há uma raridade: o nome de Joaquim Cardozo, perfilado com os dramaturgos rotulados como pertencentes à Escola do Recife ou criadores do ciclo nordestino.
Será mesmo que existe importância no teatro de Cardozo? O incompleto levantamento feito já é uma amostragem significativa para afirmar que, ou as análises empreendidas pelos críticos se restringem aos aspectos literários de uma dramaturgia meio morta e de possibilidades tacanhas para o fim a que se destina a encenação, ou eles entronizaram uma única forma tradicionalmente bem feita de teatro possível. Dizer que o teatro de Cardozo pertence mais ao terreno da poesia é negar o próprio teatro; negar a sua gênese.
O poeta teatral Joaquim Cardozo é ímpar na pseudo Escola do Recife, assim como são bem diferentes os enquadrados nela. O teatro de Cardozo não dialoga com os miseráveis, tristes e pobres de uma Terra Queimada, de Aristóteles Soares; não se aproxima da Vila da Mata ou das comédias municipais de José Carlos Cavalcanti Borges. É diferente do multifacetado Hermilo Borba Filho, intelectual explícito em seus personagens, embora haja aproximações com João sem Terra, com A Cabra Cabriola com A Donzela Joana. Talvez... Mas, a síntese cardoziana pertence às forças dos elementos; a de Hermilo, às forças sociais. Osman Lins se diferencia de todos, pela ousadia expressiva de Mistérios das Figuras de Barro e Auto do Salão do Automóvel. Ele e Joaquim são preciosos para a cena contemporânea, mas os procedimentos são desiguais. Ariano Suassuna é canônico na história e na crítica do teatro que vem sendo urdida no Brasil. Logo, comparar sua obra, plena de unanimidade, com a de Joaquim Cardozo, extrapola este pequeno ensaio. O registro memorial, o insólito e a alegria da obra de Luiz Marinho estão num patamar muito distante da forma e do gênero experimentado pelo autor de O Capataz de Salema (1975). Por fim, a ânsia de liberdade (temática e teatral) de Cardozo não tem a angústia e a revolta da liberdade amorosa e social de O Vôo dos Pássaros Selvagens de Aldomar Conrado.
Vamos, então, tirar Joaquim Cardozo da Escola do Recife e colocá-lo na Escola do Mundo, sem separações entre Ocidente e Oriente. Não há como emoldurar o seu teatro numa ótica aristotélica ocidental. Então vamos libertá-lo como filho da dança, da música e da poesia, como qualquer gênese teatral sobre a face da terra. Veremos que ele voará mais para o Oriente ou para aqueles que buscam nas manifestações espetaculares dos povos (hoje estudadas pela etnocenologia) a matéria-prima para a criação e a expressão.
O Bumba-meu-Boi é uma dessas manifestações espetaculares escolhidas pelo poeta para alimentar três de suas obras. Não apenas pelo aspecto regionalista como muitos acreditam. Até porque não somos donos desse ritual do Boi. Ele se manifestou em todo o nosso país, não é típico de uma região, mas do mundo todo em tempos diversos. Vale recordar Luiz da Câmara Cascudo garimpando o Boi em todos os pontos cardeais.
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Ao adotar o Boi como ponto de partida para a sua obra, Joaquim opta por uma operação estético-ético-conceitual, uma temática ainda difícil de calcular e solucionar nos dias atuais: a ausência da linearidade e verossimilhança, personagens tipificados, objetos animados, figuras zoomórficas, seres fantásticos, sons não verbais, amplitude e diversidade espacial, ritmos complexos, enfim, um sonho ou um pesadelo como O Grande Teatro do Mundo, de Calderón, como A Tempestade, de Shakespeare, como O Sonho, de Strindberg, ou melhor ainda, como a magia da Ópera de Pequim, como o teatro balinês, como Bunraku, o Kabuki e Nô japoneses.
Através do Boi, Joaquim coloca em poesia de alta qualidade teatral as questões básicas do ser humano. Existir, ser e estar no mundo, desistir e persistir, comer e morrer de fome, sobreviver com terra ou sem terra, com muito e pouco amor, com tristeza e alegria, enganando e sendo enganado, com esperança na desesperança, dançando, falando, cantando e caminhando. Aliás, este teatro é uma grande jornada, que conclui-se numa nova partida. Assim é em O Coronel de Macambira (1963), em De Uma Noite de Festa (1971), e em Marechal Boi de Carro (1975). Esses bois nunca terminam, pois também nunca começam. É um círculo em constante movimento, num vaivém que empurra a caminhada, quadro a quadro, passo a passo, dia e noite, numa profusão mirabolante de assuntos e formas.
Tudo é eloqüente no teatro de Cardozo. Uma partitura sonora e musical. Tudo fala: os ventos, o fogo, a água e a terra. Os espíritos, os animais, as plantas. Todos os componentes da natureza possuem alma e são entusiasmados. Até a morte é cheia de vida.
O Capataz de Salema e Antonio Conselheiro (1975) são tragédias primorosas de Cardozo. O Capataz é de uma precisão poético-teatral-contemporânea assustadora.
O mar, personagem violento, com sua força e poder de divindade, traga todas as possibilidades de amor, vida e morte. Obra densa, com três personagens: O Capataz, Luiza e Sinhá Ricarda, constitui-se numa autêntica engenharia teatral, purificada pela água, pelo fogo, pela terra e pelo vento.
Para recriar a saga de Canudos, Joaquim Cardozo escreve Antonio Conselheiro, em dois atos e dez quadros. Com refinado espírito crítico, ele prossegue sua meta de artista do planeta terra a lidar, como um demiurgo, com as forças incoercíveis da natureza e do homem.
No 4º quadro do 2º ato, o poeta compõe o grão do seu teatro, ao colocar os amantes João e Maria, a vagar embriagados de paixão, em meio a uma galeria de cabeças cortadas da história: de João Batista a Antonio Conselheiro. Um alto-falante apresenta cabeça por cabeça. As pulsões de morte dialogando com as pulsões da vida, através de reflexos ultra-sônicos.
O último quadro é uma feira. A feira das desgraças do mundo. Vendedores, compradores, passantes. Entre as figuras, Napoleão e Hitler. As mercadorias são vala comum, vinganças, glórias perdidas, ambições, o conhecimento e a ilusão. Vendem o mundo todo. Por fim, um feirante vende água do açude construído em Canudos; a água que cobre o corpo de Antonio Conselheiro:
Aqui vendemos a água do mar/
(pausa) Vendemos a saudade, o
mistério,/A infinita tristeza do mar.
É muito raro encontrar tanta beleza, criatividade, teatralidade, serenidade, sabedoria e erudição reunidas num único autor. Joaquim oferece aos encenadores uma obra sempre nova e provocante, porque cheia de sonhos e potência de encenação. Infelizmente, poucos são os atores preparados e amadurecidos para enfrentar o desafio poético-teatral de Cardozo. Um teatro para o futuro e que só é possível na esperança de atores e encenadores poetas, iniciados nos labirintos das essências, das formas técnicas.
No momento, a dívida para com o teatro cardoziano, apenas, superficialmente, começa a ser paga. Sua poética teatral é uma galáxia desconhecida. Cabe a tantos quantos queiram e sejam capazes, iniciarem a maravilhosa descoberta.
* Dramaturgo, encenador, professor de teatro na UFPE. Autor do livro Um Teatro da Morte desvelamento sócio-cultural do bumba-meu-boi. Recife: Fundação de Cultura Cidade do Recife, 2003. 254 págs.
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