| 1. Você diz que há uma vida a exigir a obra, no caso de Joaquim Cardozo. De que modo, vida e obra estão entrelaçados no poeta pernambucano?
Trata-se de um entrelaçamento poético, e isso diz tudo. “É como se duas linhas paralelas se encontrassem”, como está dito na página 20. Mas esse encontro (para empregar uma imagem da física, tão cara a Joaquim Cardozo), não vai além de uma espécie de força gravitacional atraindo, tensionando uma e outra. Não existe a projeção direta do autor da obra, como sujeito empírico, mas sim da sua visão de mundo, daquilo que ele interiorizou no convívio com o meio em que viveu. De certo modo justifico isso no capítulo “marcas no imaginário” – que justifica a alusão ao dado biográfico, representado pelo convívio com a paisagem nordestina, proporcionado pelo trabalho de campo a que ele se refere.
2. Sendo engenheiro por formação, de que forma a profissão pode ter influenciado em sua produção poética?
No capítulo O engenheiro, eu abordo um pouco esse aspecto. Não vejo influência direta, mas indireta, na formação. Isso não pode ser mensurado, até porque, pode-se dizer, há também uma componente quântica nas trajetórias do ser poético. Se fôssemos raciocinar em termos de causa e efeito, a poesia de Joaquim Cardozo teria que apresentar mais as características da de um João Cabral...Mesmo assim, é possível ver em imagens como Onde as aranhas sábias construíramestruturas levíssimas, do poema Luzia acende a lâmpada dasala, pág. 187 do livro JOAQUIM CARDOZO CONTEMPORÂNEO DO FUTURO; nas de Arquitetura Nascente & Permanente, pág. 245; na composição O salto tripartido, pág.254 (que – dizem - teria inspirado a forma das colunas do Palácio da Alvorada); ou em As janelas, as escadas, as pontese as estradas, pág. 268, dentre outros, materiais provenientes do convívio do poeta com as formas com que lidava na prática diária da profissão.
3. Você fala que o sentimento de liberdade expressa-se de diversas formas na obra de Joaquim Cardozo. Explique para o leitor do Correio das Artes como isso acontecia.
São as imagens textuais que falam. Eu leio nelas, como por exemplo aquela cuja recorrência em toda a obra eu pude encontrar - que são os grandes espaços abertos -, uma significação - não propriamente um sentimento - da liberdade. Liberdade como abertura, espaço do encontro com o mundo, com o universo físico em todas as suas instâncias. Liberdade expressa como corpo, no significante poético. E isso se gera de um paradoxo existencial, porque Cardozo, na vida real, cultivava, por um lado, a introspecção, o retraimento (no relato Brassávola, do livro Água de Chincho, ele diz que saiu de casa e foi morar sozinho, numa casa velha, que lembra, pelo local e ambiente, um conto de Allan Poe); por outro lado, humano entre os seus semelhantes, cultivava a convivialidade, como diria seu amigo Evaldo Coutinho. A liberdade que eu vejo na poesia de Cardozo ( refração da vida vivida) correspondia, na prática, entre outras coisas, a um descaso em relação a certos estereótipos de comportamento, inclusive que conotam a chamada vida literária. Abordo esse aspecto ao longo da primeira parte do livro, especialmente no capítulo Solidariedade e Singularidade.
4. Percebe-se, na poesia de Joaquim Cardozo, uma certa solidão, talvez novamente reflexo de sua vida pessoal. Seria correto concluir que ele foi mais espectador do cotidiano do que personagem de sua própria poesia?
Cardozo nunca seria um puro espectador. Uma das coisas que eu percebi e que procurei mostrar é presença forte do olhar. Este, sim, é o verdadeiro personagem, aquele que materializa e corporifica tudo que passa no seu caminho.
Embora pernambucano, com vários poemas que fazem menção à sua terra natal, a poesia de Joaquim Cardozo pode ser considerada universal?
Sim, porque se trata da Poesia (com p maiúsculo), fruto de uma sensibilidade refinada. O poema A várzea tem cajazeiras demonstra isso, também como transgressão dos códigos da língua. O poeta e crítico César Leal, na introdução à antologia por ele organizada e editada pelas Edições Bagaço, POEMAS SELECIONADOS, mostra o que um grande poeta pode fazer com a língua. É isso que faz uma poesia ser universal.
5. Joaquim Cardozo começou a compor seu primeiro livro de poemas ainda na década de 20. Apesar disso, e apesar de utilizar uma linguagem bem moderna, quase não é citado entre os grandes autores do Modernismo. Por que isso? Por opção dele mesmo ou por desconhecimento da importância de sua obra?
Aparentemente é por desconhecimento...Mas, existe uma tese altamente polêmica, defendida em um artigo do poeta e crítico Felipe Fortuna, publicada no Jornal do Brasil, em 1987: a de que “Joaquim Cardozo é, no Brasil, quem efetivamente aproximou a percepção verbivocovisual da expressão poética, harmonizando sua prática com o domínio de mais de uma dezena de idiomas e da filosofia da linguagem. Nesse sentido, sua poesia, tanto pela base cultural, quanto pela realização, é largamente superior à de Oswald de Andrade - o mesmo que, naquele período, teve sua obra desastradamente aproximada de Joyce. Ironicamente, o respeito que os próprios concretistas nutrem pela poesia de João Cabral agrava essa inexplicável ignorância: pois, sob certa perspectiva, não se pode compreender a poética do autor de Morte e Vida Severina (1955) sem se referir à de Joaquim Cardozo.
Os pontos de contato entre os dois são evidentes, seja quanto à construção do poema, seja quanto à consciência da linguagem”.
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6. Apesar da aparente solidão, Joaquim Cardozo demonstrava senso de humor. De que forma esse senso de humor era aplicado em seus textos poéticos?
O humor em Cardozo é muito sutil. Eu mostro isso quando falo do poema O silêncioexpectante e a voz inesperada, pág. 229. O motivo do poema é a pesquisa científica, mas a um certo momento ocorre, no nível do texto, uma mudança de trajetória; e o que começou em tom sério termina com um final inesperado; com um desvio para o brincar. No poema Visão do Último Trem Subindo ao Céu há momentos de humor, inclusive com a utilização dos símbolos da matemática. Não fora o humor, que sentido teriam os versos Todo o universo é um só brinquedo de criança / entretidos com ele os sábios morrem cansados de brincar.
7. Joaquim Cardozo publicou o primeiro livro em 1947, mais ou menos quando João Cabral estava começando a se destacar na literatura nacional. É verdade que Cardozo teria influenciado o autor de “Morte e Vida Severina” e de que forma se deu essa influência?
Não há nada de científico sobre essa questão de influências, sobretudo entre dois poetas que conviveram tão de perto, que foram amigos. A convivência ? As afinidades em leituras ? Quais ? E tudo muito vago.
8. O que mais impressionava na poesia de Joaquim Cardozo?
O que mais fala à minha sensibilidade, na poesia de Joaquim Cardozo, é o sentimento do universal. É o convívio do mistério com o aparentemente corriqueiro, cotidiano; um emanando do outro.
9. De que forma o episódio do desabamento do Pavilhão de Exposições da Gameleira, em 1971, em Belo Horizonte, pode ter influenciado na produção literária de Joaquim Cardozo nos anos seguintes?
Seria apenas “conjectura dramática” dizer que houve uma influência. O que pode ter ocorrido foi, talvez, um aguçamento do sentimento da morte (que sempre foi presente em sua poesia).Mas, como na poesia das Nove Canções Sombrias - não datada- (de UM LIVRO ACESO E NOVE CANÇÕES SOMBRIAS) é muito evidente a presença da morte, em contraponto têm-se as composições cuja temática é a luz, a vida. Mais uma vez, predomina o sentido do universal.
Joaquim Cardozo traduziu diversos autores, como Ezra Pound, William Carlos Williams e Bertolt Brecht, entre outros. Algum desses escritores o influenciaram de alguma forma?
Ezra Pound era um dos autores referidos por Joaquim Cardozo, no tocante à técnica de composição, do fazer poético em si. Bertolt Brecht, é bem provável que o tenha influenciado, sobretudo na obra dramatúrgica, voltada para os problemas das camadas exploradas da sociedade.
10. Embora contemporâneo do concretismo, Cardozo seguiu seu próprio estilo poético. Aqui funcionou também a sua solidão?
Evidentemente que sim. Solidão, nesse caso, não é a do indivíduo fechado em seu mundo pessoal, mas que, paradoxalmente, se torna particular - e única - , pela incapacidade do poeta de render-se às exigências de um momento histórico (e literário) determinado.
11. Você, segundo me afirmou Delmo Montenegro, é uma das maiores especialistas em Joaquim Cardozo. Quais as dificuldades e as alegrias de cuidar da obra desse grande poeta?
Na verdade, as dificuldades transformam-se em alegria, quando por trás existe o prazer da descoberta. Para mim, a maior descoberta foi a do gosto pela ciência, especialmente pela física moderna. Acho mesmo que a minha visão de mundo se enriqueceu com essa abertura, esse não confinamento ao universo específico da literatura. Em suma, trata-se de uma leitura que vai demandando outras, e isso é muito estimulante. Mas, como disse o Leo Gilson Ribeiro, na nota que deu sobre o Contemporâneo do Futuro, na Caros Amigos de maio, Joaquim Cardozo, sendo um poeta culto, é também um poeta do sentimento, com um matiz nostálgico que o aproxima de Manuel Bandeira.
12. “Contemporâneo do futuro” é o título do seu livro. Joaquim Cardozo foi realmente um autor que esteve além de seu tempo?
Também o título é justificado ao longo do livro. Basta dizer que, na primeira metade do século XX, quando as descobertas da física sobre o comportamento da matéria eram ainda recentes, Cardozo transformou-as em poesia. E numa linguagem adequada às exigências da nova poesia. Sendo hoje atual, ele foi, por isso, um contemporâneo do futuro (que para ele seria o agora que estamos vivendo).
Correio das Artes, 3 a 4 de julho de 2004.
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