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Poesia em 3 momentos
A estrutura perfeita
Com seus cálculos, Joaquim Cardozo viabilizou os sonhos de Niemeyer. Em seus versos, lança-se no futuro infinito
Manoel Ricardo de Lima
Especial para o Correio
Num percurso rápido: há uma esquizofrenia no que se monta como literatura brasileira. Primeiro, um corte esquisito que despreza tudo o que é distância. Depois, uma generalização monstruosa ao se afirmar coisas numa cerca de períodos, de marcas de tempo, de questões de geração etc., que também despreza toda e qualquer noção de distância. Além do fato de serem propostas vazias de sentido neste momento, estas marcas comuns ou estes horizontes de geração, por exemplo. A perspectiva de “brasileira” nesta pauta é uma doença provocada por uma preguiça para deslocar o olho mais longe ou por uma insólita mesquinhez do canônico. Tanto é que ao se dar voz aos autores registrados no tal “cânone” não se ouve uma dissonância, uma abertura ao imprevisto que seja, mas apenas a mesma repetição enfadonha de lugares comuns, não se ouve nenhum caráter propositivo para a construção de uma idéia de diferença ou de inadaptação. O mais grave ainda é a tentativa de construção de filiações, de pares, de colunas e de protocolos.
Assim, se pensamos desde uma certa euforia nacionalista no desmonte do modernismo brasileiro, para além dele mesmo, seria interessante pensar o que se aparece — se é que aparece — apenas como ausente ou como outro rasgo de tensão, aquilo que seria vertiginoso porque à margem. Falo de Joaquim Cardozo, pernambucano, engenheiro calculista, poeta, “contemporâneo do futuro”, um “acontecimento branco”. O silêncio provocado por esta imagem, por sua vez, seria o de uma poesia como a de Joaquim Cardozo, uma poesia do fora. A poesia de um impasse que vem a ser, também, sugestão de deslocamento para um outro sentido da experiência moderna, numa idéia do moderno à margem, como se uma “escavação da experiência” protocolar: reter e deixar ir, no tempo inseguro do instante.
E é esse impasse que parece sugerir um peso a esta experiência que pode estar ali, ou aqui, ou acolá, tanto faz, ou nem estar, já ter sido, como uma zona de fronteira; como zona movediça, pantanosa, em que a própria noção de fronteira desapareça sendo ela mesma um elemento de incorporação; contraditório, às avessas, segunda natureza ou artificial, mas sempre e antes um campo de tensões. Esta mesma imagem pode passar a ser, de alguma maneira, um sem tempo, um tempo antes, um tempo depois, com capacidade e voracidade onívoras, numa espécie de moderno “mais ausente do que participante” — a expressão é de Joaquim Cardozo.
Nesta distância, ou deserto, é Maria da Paz Ribeiro Dantas quem tem dedicado tempo e tempo, desde 1970 mais ou menos, à poesia de Joaquim Cardozo. Autora de três livros a partir dele e mais um endereço na internet — onde vem reunindo material mais que interessante. Nascida numa cidade de nome Esperança, na Paraíba, há muito vive em Recife — terra de Joaquim — no charmoso bairro do Rosarinho. E é um pouco sobre seu último livro, Joaquim Cardozo: contemporâneo do futuro, que conversamos por e-mail para dizer alguma notícia desta imagem do acontecimento branco que foi Joaquim Cardozo, que é a sua poesia.
Manoel Ricardo de Lima é poeta. professor de literatura portuguesa, Ufsc. Autor de as mãos, embrulho e falas inacabadas, este último com Elida Tessler. Desenvolve pesquisa de doutorado a partir de Joaquim Cardozo e Ruy Belo
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Entrevista - Maria da Paz Ribeiro Dantas
“O cantor de nenhures”
De onde e como surge sua relação amorosa com o trabalho de Joaquim Cardozo?
Ao ler certos poemas de Cardozo, tenho quase a sensação de que não estou presa a um livro; é como se a poesia me fizesse respirar a própria liberdade de existir. Talvez o livro funcione como uma janela que nos faz perceber o mundo como vastidão — o espaço — ou espaços plurais — como ele o concebe. E que me esforcei por mostrar em meu trabalho.
Há uns versos, por exemplo: “Eu vi nascer as luas fictícias / que fazem surgir no espaço a curva das marés.” Acontece de esses versos me acompanharem em percursos em que deparo com a visão do mar. Daí ao mar das mais antigas ficções, desde Homero — e o que dizer da lua ? — o que seria de nós se não tivéssemos esses espaços fictícios? — se o próprio oceano fosse uma vastidão alcançável só pelos nossos olhos físicos. Essa imagem da curva das marés está entre as que me remetem a esses espaços fictícios.
Mas o que não esgota o meu espanto é mesmo o Visão do último trem subindo ao céu. Não sei de ninguém que até hoje se tenha servido da poesia como imaginação visual, juntando física e metafísica, como se tem nesse texto. (se alguém souber ou vier a descobrir, peço que me mostre...). E quando eu digo imaginação visual não me refiro aos elementos gráficos disseminados pelo texto — todo ele concebido a partir do sentido da visão. Bem sintomáticos são estes dois versos: “E vêem com o sentido da vista-vida / com o sentido de ver-viver”. É isso que o poeta constrói: o poema colocado diante do leitor como rastro, ou alguém que viajasse por dentro da palavra. A palavra como corpo, algo palpável, não mero sentido "ausente". Isso nos arrasta pela poesia como um ato que envolvesse o corpo na aventura de adentrar a inteligência do existir.
Joaquim arriscou pensar sobre arte, arquitetura, poesia e explorou outros sentidos no texto para teatro, por exemplo. Um pensamento que se desdobra também até as leis da ciência e repensa as condições da história como origem e como fim. Ou como você nos indica em seu livro: a poesia de Joaquim é de uma Recife para um tempo sem fim.
Eu só poderia “arriscar” uma resposta: a nossa cultura está muito baseada na razão ocidental, na lógica aristotélica; e Cardozo, embora amando apaixonadamente a ciência, rompeu com esse condicionamento. Ao dar o salto, alcançou o outro lado da ciência, a poesia. Parece-me que aí esteja o segredo desse saber cativante que está na base da obra de Joaquim Cardozo. E Recife, como não podia deixar de ser, também está banhada nessa luz.
A poesia de Joaquim é da "região de nenhures", o lugar nenhum ou o inferno. Poesia é coisa, talvez, para lugar nenhum, para a inadequação, para a inadaptação. Você articula uma pista propositiva da in-visibilidade como o olhar de uma outra forma. Qual senso para esta poesia do lugar nenhum e da in-visibilidade, ainda, no prisma do que se pode chamar de história cultural brasileira ?
Esta sua observação eu associo ao que li há pouco em De amor e trevas, a autobiografia de Amós Oz, quando ele diz pela boca de uma personagem: “a única viagem da qual nem sempre voltamos de mãos vazias é a viagem para dentro de nós mesmos, onde não há fronteiras nem alfândegas e podemos chegar até as estrelas mais distantes. Ou passear por lugares que já não existem, visitar pessoas que já não existem. Até entrar em lugares que nunca existiram, e talvez não tenham podido existir.” Eu não diria que toda a poesia de Joaquim seja “da região de nenhures” (considerando-se que parte dela toma Recife como mote e também a Várzea, pátria de seu imaginário). Por outro lado, esse ‘lugar nenhum” (região por onde o último trem passa), embora tendo consistência no tempo e no espaço, é paradoxalmente o termo inexistente dessa viagem onde nunca se chega. E aonde, para todo sempre, se está indo. Não seria assim se o poema fosse outra coisa que não a narrativa-descrição de uma viagem. Narrativa que não evoca o objeto e sim presentifica-o. Isso é fantástico, se considerarmos que a coisa narrada se dá num espaço inexistente. Daí a imagem do Acontecimento Branco, no fecho ao poema.
Depois, seria o mesmo que definir um ponto de chegada para a viagem do último trem. Essa viagem nos enfia olhar adentro a percepção de que nada está parado no espaço tempo. A ruptura com a noção de história linear aflora de dentro da narrativa. Tomando esta como metáfora do que você identifica como “história cultural brasileira”, o que se pode pensar ? Não tanto que essa poesia estaria sem lugar, e sim que ela implode a própria noção de lugar visto como algo estático. O que se deduz daí é óbvio: lugar é algo ilusório por dar idéia do que estaria fixo: já que do prisma do movimento universal, o que existe mesmo é relação entre objetos. Esta sim, é dinâmica. Tem tudo a ver com esse “olhar de outra forma”, como diz a sua leitura do meu texto.
A poesia brasileira insiste nesta idéia tola de cânone, de filiação, de novos, de antigos, e esquece que o mais interessante é propor uma grande linha tensa contemporânea. Como você pensaria a poesia de Joaquim nesta perspectiva?
A poesia de Joaquim (com ênfase particularmente no Trivium) parte de uma visão quântica da realidade. Nela não há distinção entre tempo e espaço. Essa coisa de estratificar, de enquadrar o objeto, própria das histórias da literatura ou mesmo do comum das biografias, tende mais a moldar o escritor a partir de um padrão. Desse ângulo, importa mais o que aproxima uns aos outros, menos o que os separa ou distingue. (de repente, isso pode explicar certo desinteresse pela produção de Joaquim Cardozo...). Quanto à segunda parte de sua questão acredito que ao menos arrisquei uma resposta quando há pouco me referi à quebra da lógica aristotélica e conseqüente encontro com a poesia da ciência (ou do conhecimento, falando de modo mais abrangente). Poesia que certamente será acolhida pelos leitores sensíveis ao tecido da contemporaneidade: um tecido complexo quanto ao pensar (em termos de filosofia e ciência) e simples quanto ao fazer (em matéria de arte).
Pra encerrar, fale um pouco da relação-parceria do engenheiro calculista Joaquim Cardozo com Oscar Niemeyer, Brasília, uma arquitetura moderna, a arquitetura como poema.
Bom, nesse aspecto, é aquela coisa, a instância maior da mente de Joaquim Cardozo: alcançar para além do imediato. Também no cálculo ele deu o mesmo salto que o fez encontrar a poesia do outro lado da razão cartesiana. Numa entrevista, chegou a dizer que não teria continuado a praticar o cálculo de estruturas se tivesse que permanecer atrelado às normas. Com a arquitetura de Oscar Niemeyer ele pôde unir o desejo à prática: o projeto de Brasília, todo aquele futuro utópico que o país vivia. Era como se tudo estivesse dentro e fora dele. Na dimensão de seu poema Arquitetura nascente & permanente.
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