DA PAZ/CARDOZO

                                                       Jomard Muniz de Brito


     Que mistérios tem Maria da Paz para se identificar e, ao mesmo tempo, projetar-se pelos textos e contextos, letras e labirintos de JOAQUIM CARDOZO?

     Quantos exercícios de tensão permanente, além de polaridades e porosidades, conduziram DA PAZ a reencontar CARDOZO em ROLAND BARTHES ou transfigurar BARTHES em JOAQUIM CARDOZO?

     Quantos imprevistos e indeterminações entre a solidão e a sucessão de contingências, entre o Recife Velho e a Visão do Último Trem Subindo ao Céu, entre o homem marcado e o signo estrelado, quantas tenacidades continuam se confrontando-se entre os dois poetas-ensaístas: MARIA DA PAZ CARDOZO ou JOAQUIM MARIA DA PAZ CARDOZO DANTAS?

     Que mistérios, que exercícios, quantas tensões e pulsações que, quais, quantos, a serviço do que eu de quem? Da terra escura/ para uma estação de águas nos teus olhos/ ao clamor desta hora noturna e mágica/ A paisagem total de toda a vida terrestre...

     
Ambos cultivando o chão da ascese, para melhor curtirem o cantochão sublime do êxtase. Disciplina amorosa e cálculo filosófico. Magia e engenharia. Problemas novos, soluções belas e ousadas. Conhecimento das ciências e consciência lúdica dos mitopoemas.

     Por isso essas duas cidades – da Paz e Cardozo – esses dois livros se completam e se multiplicam pelo calor das projeções e identificações. Pela serenidade das empatias.

     E muitos outros desejos e crises do desejo, perguntas e decifrações poderiam instigar a releitura contínua dos textos de DA PAZ CARDOZO pelas lentes discretamente luminosas de Roland Barthes.

 

 



     O que faz de Joaquim Cardozo um autor com a mais densa consciência fenomenológica da região e das regionalidades, sem contaminar-se com a onipresença dos regionalismos ultraconservadores?

     O que faria de Cardozo um precursor múltiplo da vanguarda popular, sem os delitos do elitismo e sem os deleites do populismo?

     O que fará de Joaquim Cardozo o signo mais vivo, o símbolo mais visível, plástico, verbal, arquitetônico, dramatúrgico e intersemiético da poeticidade? Quem sabe, DA PAZ, da instauração da poeticidade? Não apenas do fazer versos ou recitar poemas. Não somente do pesquisar linguagens, além das línguas arcaicas e dos incontáveis idiomas. Não rigorosamente através da criação científica ou da poética de invenção. Poeticidade do múltiplo CARDOZO se identificando e projetando pelas transcriadoras ressonâncias de MARIA DA PAZ.

     Como se fosse possível a Visão do Primeiro Trem Descendo à Terra, na filosofia como genealogia, o fazer poético se enraizando e irradiando como núcleo de poeticidade. A palavra como fogo. O verbo como fagulha e fogueira. Tempo e espaço da criação, do ser poético em tudo, por todos, através de JOAQUIM CARDOZO reinventado por Maria da Paz Ribeiro Dantas.

Jomard Muniz de Brito
05 de junho de 1987, terceira margem de Casa Forte.
Apresentação feita na ocasião do relançamento dos livros O Mito e a Ciência na poesia de Joaquim Cardozo e Joaquim Cardozo – ensaio biográfico – no dia 05 de junho de 1987, no pátio do Mercado da Ribeira, em Olinda.
 
 Rede de Idéias                           Editora: Maria da Paz Ribeiro Dantas. Colaboração especial: Douglas Tabosa de Almeida                                      .