Prefácio

João Denys Araújo Leite

     Este livro de Maria da Paz Ribeiro Dantas, que tenho a satisfação de apresentar, é uma obra de movimento em movimento, de envolvimento e revolvimento de uma poeta paraibana-recifense que tem dedicado mais de vinte anos de sua vida ao estudo da obra de Joaquim Cardozo. Sua chegada coincide com um momento muito importante da história do nosso país, em que se vislumbram alternativas de futuro-do-passado, assinalado por esperanças e incertezas. Coincide também com um tempo em que se ampliam os estudos sobre o dramaturgo que compôs DE UMA NOITE DE FESTA (não mais totalmente apagado da nossa história cultural), e que tem em Maria da Paz, ao falar do TRIVIUM, a desbravadora de uma verdadeira mata virgem da poesia brasileira, para não dizer universal, representada por “Visão do Último Trem Subindo ao Céu”.

     Joaquim Cardozo contemporâneo do futuro analisa a poesia do autor de Mundos Paralelos, o homem marcado pelo local de sua cultura, sua singularidade universal, sua pluralidade e multiplicidade. Forma, espaço, tempo, arquitetura, engenharia, movimento, ação, memória, mito, geografia, cosmos, física, matemática, solidariedade, finitude e infinitude são balizas que constroem o roteiro deste livro.

     Na primeira parte da obra, Maria da Paz desvela um rizomático entrelaçamento da vida e da obra do poeta, retomando e ampliando seu ensaio biográfico sobre Cardozo, Prêmio Jordão Emerenciano na categoria Ensaios, dos Prêmios Literários Cidade do Recife, versão de 1 984, que veio a ser publicado em 1 985. Neste Contemporâneo do Futuro, Da Paz, com argúcia e sensibilidade poética, esmiúça as marcas do imaginário do poeta-engenheiro, sua vida e sua relação criativa com o ser humano e a natureza, além de absorver fragmentos de Água de chincho, coletânea inédita de contos autobiográficos, que ela considera como uma das melhores fontes de informação sobre a vida de Joaquim Cardozo.

     Como observa a autora, no poeta de Signo Estrelado “as palavras não são apenas palavras; são rastros de fenômenos [...]”. Creio que essa seja uma das chaves para se abrirem as portas da compreensão das obras aqui analisadas. Uma linguagem que se edifica de rastros em movimento e ação; linguagem de restos do homem e da natureza; fragmentos da história, da cultura e da sociedade tomados a partir de um olhar multivário e semovente, voltado para narrar e produzir sentidos. Cardozo não apenas olha e vê com seu aparato de representação poética, mas empreende uma visada de sujeito fraturado, segundo o conceito de Luiz Costa Lima, reordenando suas imagens estilhaçadas da história, em fusões, superposições, tensões, inversões e transmutações. Sua forma é energia. Energia compartilhada e agenciada por uma poesia que se expande para além das estrelas, partindo do local de sua cultura e de sua posição de sujeito que ali se desloca.

     Cardozo possui uma visada de mundo como revolução permanente, um processo mutacional que reintegra o tempo, o espaço, o movimento a uma microfísica e a uma macrofísica do fenômeno artístico contemporâneo. Essa visada é averiguada com muita justeza por Maria da Paz, logo no início da segunda parte do seu livro.

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     A autora compreende que o esforço cardoziano de produzir poesia como quem dissemina estrelas altera substancialmente suas concepções de tempo e espaço. E acrescento: tempo e espaço sociocultural, que vão se tornando mais e mais significantes a partir de “Arquitetura Nascente & Permanente” , processando mundos paralelos, de fronteiras arbitrárias, até alcançar o interior da matéria.

     O trabalho de Maria da Paz possui muitas colinas de excelência, porém a mais alta e profunda é aquela em que ela analisa o poema “Visão do último trem subindo ao céu”, segunda composição da trilogia denominada Trivium , escrita entre 1952 e 1970. Sua investigação, nesta parte do trabalho, parece-me ser um daqueles frutos que necessitam de uma vida para amadurecer. A autora, madura, demonstra seu grande esforço de aproximação com a obra e a vida de Cardozo. Esforço da poeta que caminha ao encontro da ciência, da sabedoria, do autor. Investimento epistemológico e humano para compreender e assimilar a física contemporânea se fazendo poesia, buscando romper barreiras e desfazer equívocos entre arte e ciência. Essa penetração no mais complexo poema de Cardozo iniciou-se nos anos 1980, quando Maria da Paz publicou o resultado de sua pesquisa acadêmica intitulada O mito e a ciência na poesia de Joaquim Cardozo ; uma leitura barthesiana, em convênio firmado entre a Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco e a José Olympio Editora, em 1 985.

     Entrando no extremo do aqui e do agora , a autora tem a nítida e inequívoca interpretação de como Cardozo concebe e representa a morte-vida, presente não apenas no poema “eletromagnético” que se encontra em Trivium , mas em toda a sua obra, notadamente a obra dramatúrgica. Maria da Paz nos diz que o “tratamento dado ao tema morte desbrava um espaço que talvez nunca tenha sido visitado pela poesia. Com a imaginação auxiliada pela matemática, o poeta de ‘Visão do último trem subindo ao céu’ entra nesses espaços inconcebíveis, ‘curvados’ à imaginação humana”. Eu diria mais: Cardozo desafia nossa imaginação de atualizadores de sua obra mediante o efeito provocado por sua forma de representar o irrepresentável, de configurar o indizível. Sinto falta, no entanto, de uma pertinente analogia entre as proposições poéticas de Cardozo, captadas da lógica e da física quântica, e o processo sociocultural. Analogia entre posição social do sujeito e situação pontual de um dado observador de eventos físicos, que desconstrói um presente contínuo universal. Sei também que essa ausência sentida extrapola os limites que a autora estabeleceu para a sua análise, de cunho mais imanentista. Este trabalho, brilhante e honesto, mergulho exaustivo no interno da poesia cardoziana, é um precioso presente ao leitor, que encontrará elementos para fruir essa poesia, aqui escolhida, e refletir sobre o Cardozo que ultrapassa gestos-palavras, em direção ao futuro-do-presente-mutante. Lá onde se encontram novos cardozos, outros espaços-tempos desconhecidos do universo, do corpo e da alma humana em expansão.

     Recife, 17 de outubro de 2003
 
 Rede de Idéias                           Editora: Maria da Paz Ribeiro Dantas. Colaboração especial: Douglas Tabosa de Almeida                                      .