Joaquim Cardozo: Contemporâneo do Futuro
Fernando Py
O poeta pernambucano Joaquim Cardozo (1897-1978) teve sempre muitos admiradores, mesmo quando ainda inédito em livro. Entre estes, porém, houve sempre um que mais se destacasse como analista de sua poesia, e isso em fases diversas. Primeiro, no começo dos anos 1960, foi a vez de Fausto Cunha (1928-2004), penetrante crítico e ensaísta, que analisou lapidarmente o poema “Prelúdio e elegia de uma despedido”, no ensaio “Exercício de admiração”, publicado na revista Módulo (Rio de Janeiro, vol. 6, núm. 26, dezembro 1961, p. 30-32), edição dedicada a Cardozo.
A análise de Fausto Cunha é importante em si, não apenas como primeiro trabalho de vulto sobre a poesia cardoziana, mas também por distinguir especialmente um poeta ainda então considerado “menor” (1).
O segundo, no começo dos anos 1970, fui eu mesmo, com o ensaio “Joaquim Cardozo” (estudo crítico, antologia comentada e notas), trabalho feito para a coleção Poetas do modernismo (6 vols., 1972), organizada por Leodegário A. de Azevedo Filho, e que se acha reproduzido no meu livro Chão da crítica (1984). Sobre ele, o crítico Wilson Martins escreveu o seguinte “... um capítulo fundamental sobre Joaquim Cardoso [sic], destinado, creio eu, a marcar época no estudo de um poeta injustamente negligenciado”. (Pontos de vista-11, São Paulo: T.A. Queiroz, 1995, p. 379-380).
Finalmente, o terceiro é que, me parece, está de fato destinado a marcar época nos estudos sobre Cardozo: Maria da Paz Ribeiro Dantas já publicou duas excelentes monografias sobre o poeta (O Mito e a Ciência na Poesia de Joaquim Cardozo, 1985; e Joaquim Cardozo – ensaio biográfico, 1985). Volta a estudar o poeta agora, lançando Joaquim Cardozo: contemporâneo do futuro (Recife: ENSOL, 2003). É um trabalho bastante alentado, completo quanto possível, e que apresenta Cardozo detalhadamente a quem não o conheça ainda. Vejamos.
Maria da Paz divide o trabalho em duas partes, focalizando primeiro a vida e a obra do poeta; depois, na parte intitulada “Do objeto ao olhar”, analisa a maneira como o mundo se apresenta a Cardozo (ou ele o vê em função da poesia) e estuda a obra-prima do poeta que é “Visão do último trem subindo ao céu”, talvez o mais importante poema brasileiro escrito nos últimos trinta anos. Na parte propriamente biográfica do ensaio, a autora mostra como a sua poesia – e alguns de seus contos mais importantes, ainda inéditos em livro ( 2 ) – têm sua origem nos trabalhos que Cardozo realizou como topógrafo entre 1920 e 1922. Convêm assinalar isto, pois tanto os poemas como os contos respiram de fato uma atmosfera autobiográfica; neste caso, como em outros passos, não podemos destacar sua obra da sua vida, em circunstâncias que, devidamente recriadas, se tornaram textos de grande acuidade e penetração psicológica.
Na segunda parte, Maria da Paz aprofunda seu estudo, mostrando as relações existentes entre a profissão do poeta (engenheiro, arquiteto e calculista de estruturas) e a poesia, onde há sempre um substrato científico a permear a linguagem dos poemas. E Cardozo também alicerça sua obra em considerações filosóficas sobre o tempo e o espaço, e nesse pormenor é notável a trilogia Trivium, que corresponde a sua mais alta realização no gênero. Além de “Visão do último trem subindo ao céu”, essa trilogia compõe-se de “Prelúdio e elegia de uma despedida”, que já mencionamos, e do “Canto da Serra dos Órgãos”. Os estudos de Maria da Paz sobre o Trivium são fundamentais, principalmente a análise de “Visão do último trem subindo ao céu”, que é a melhor e mais abrangente exegese deste poema que já li. (3) Aliás, Trivium – cuja primeira publicação total se deu na primeira edição de Poesias completas (Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1971) – é, de suas coletâneas, a que guarda maior densidade, embora composta ao longo de dezoito anos: 1952-1970.
A mesma opinião tem Maria da Paz, para quem “no Prelúdio e elegia de uma despedida”, o mundo é contemplado... através do tempo cíclico...” (p.84), ´Visão do último trem subindo ao céu´ corresponde a “uma estranhíssima viagem pelo contínuo via-morte, representado pelo espaço-tempo da relatividade” (p. 85) e o `Canto da Serra dos Órgãos` significa “um monólogo em que a consciência mítica do universo fala a si própria com a ´eloqüência` (que se reconhece´ do tempo dos deuses´)” (p. 85).
Se Maria da Paz se limitasse à análise da poesia de Cardozo, já teria feito um trabalho notável. Mas ela acrescenta ao livro uma antologia, cuidada e bem abrangente da poesia cardoziana, onde sobressai a transcrição integral dos três grandes poemas de Trivium. Além disso, o volume oferece algumas ilustrações, com fotos do poeta e a reprodução de desenhos seus; uma sinopse cronológica e listagem das obras de Cardozo, referências bibliográficas e uma nota do editor justificando o texto das peças de Cardozo. Acima de tudo, porém, o livro transcreve o ´Depoimento de um engenheiro`, em que Slobodan Stojanovic, engenheiro civil sérvio, radicado no Recife desde 1986, comenta e analisa o caso do desabamento do Pavilhão da Gameleira, em Belo Horizonte (1971), que teve tanto impacto na vida de Joaquim Cardozo (4). Stojanovic inocenta Cardozo de qualquer culpa e mostra como seus cálculos foram deturpados e/ou minimizados. De todo modo, o livro de Maria da Paz Ribeiro Dantas nos oferece um retrato de corpo inteiro do poeta e calculista, sobretudo para quem não o conheceu nem sabe de sua obra, evidenciando a importância da sua poesia não só para os leitores de hoje, mas para aqueles que, no futuro, poderão verificar que Joaquim Cardozo é seu legítimo contemporâneo.
Petrópolis, 24 de Agosto 2004.
Notas
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Contudo Manuel Bandeira, que incluíra Joaquim Cardozo entre os poetas “bissextos” em sua Antologia dos poetas brasileiros bissextos contemporâneos (1946), retirou-o na segunda edição do livro (1964), reconhecendo que o poeta já passara à categoria de “contumaz”. De fato, o “bissextismo” de Cardozo era apenas relativo ineditismo.
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Embora ainda inéditos no dia em que escrevo, existe um projeto para publicá-los, bem como toda a sua obra em poesia, em volume da editora Nova Aguilar.
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Quando preparei meu trabalho para Poetas do Modernismo, em 1969-1970, o poema ainda não estava completo. De maneira que só coloquei na minha antologia fragmentos da primeira e da quarta partes.
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Existem vários depoimentos que mostram como Cardozo se sentiu arrasado com o episódio. Em entrevista para José Guilherme Mendes na revista Ele Ela (núm. 79, novembro 1975), Cardozo diz: “Nem agüento lembrar: foi horrível. Quando soube, pensei: Meu Deus, como é que deixaram acontecer? Como deixaram morrer essa gente?”. À época em que ocorreu a tragédia, teria confessado: “Bem, eu chorei. Mas não chorei por mim, tenho a consciência tranqüila. Chorei porque quando o povo sofre, eu sofro também” (Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 5-11-1978). E no Jornal do Comércio, do Recife (12 de novembro 1978), o jornalista Homero Fonseca, no corpo da matéria “Extraordinário artífice do concreto armado”, transcreve o comentário de amigos de Cardozo, unânimes em apontar o episódio como lhe sendo fatal: “Ele começou a morrer ali”.
* Publicado em Poiésis: Literatura, Pensamento & Arte, .nº 102 set. 2004.
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