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Por
Marco Polo
Toda escrita tem seus segredos.
Chaves que abrem portas inesperadas para “locais”
inesperados, sentidos ocultos, planos secretos,
mistérios. Sentidos, planos, mistérios que a escrita dos
poetas multiplica, às vezes, em vários níveis. Poucos
têm a sorte, porém, de encontrar exegetas argutos,
dedicados e à altura de seus textos. João Cabral de Melo
Neto, em sua última visita ao Recife, em 1995, quando
veio lançar sua Obra Completa, em edição de luxo pela
Aguilar, sentia-se assim.
Após várias
solenidades e discursos tediosos, já num bar, confessou,
entre um gole e outro de uísque: “Esse pessoal todo fala
da minha poesia, mas nenhum deles me leu”. Ante os
protestos generalizados dos que estavam à mesa,
continuou, ranzinza: “Mas é isso mesmo. E, dos poucos
que me leram, menos ainda entenderam o que eu quis
dizer”.
Se estivesse vivo, Joaquim Cardozo –
outro grande poeta pernambucano – poderia dizer que
encontrara pelo menos uma leitora à sua altura. Autora
de “O Mito e a Ciência na Poesia de Joaquim Cardozo” e
“Joaquim Cardozo: Ensaio Biográfico”, Maria da Paz
Ribeiro Dantas arremata e reafirma seu trabalho em seu
terceiro livro sobre o poeta, “Joaquim Cardozo:
Contemporâneo do Futuro” (Ensol Editora, 339 páginas, R$
27,00).
O livro está dividido em três partes. Na
primeira, a autora traça um desenho biográfico de certas
fases na vida do poeta, partindo dessas experiências
para examinar alguns aspectos de sua poesia. Na segunda,
detém-se sobre aspectos formais da obra de Cardozo e,
mais minuciosamente, sobre certas angulações
surpreendentes do poema “Visão do Último Trem Subindo ao
Céu”. Na terceira, seguindo o bom preceito de Ezra
Pound, reproduz na íntegra os poemas referidos no texto
crítico.
Relacionando vida e obra, Maria da Paz
mostra como a atividade de Cardozo, na juventude,
enquanto topógrafo, ao mesmo tempo em que o colocava em
contato com a natureza e os espaços livres, refletia-se
na sensibilidade finíssima do poeta “como espaço
interior, horizonte do olhar, gravitação em torno da
liberdade como signo da vastidão, do ilimitado,
associado às imagens do espaço e do movimento”.
Maria da Paz assinala, ainda, que na poética
cardoziana importa mais o sentido semântico da palavra
que seu encantamento sonoro. Daí o interesse do poeta
pela ciência. E a utilização até do que pode parecer
fórmulas matemáticas num poema. Mas, atenção. Cardozo,
assinala Maria da Paz, não reduz a poesia à mera
divulgadora da ciência, como o fez Lucrécio. Quando
utiliza os números, faz, isto sim, uma referência à
dinâmica das quatro operações, no sentido de avanço e
recuo, expansão e retração do que existe.
Toda
essa complexidade de nuances pode explicar por que o
escritor pernambucano tem se caracterizado mais como um
poeta para poetas do que como um autor popular. Aliás,
na mesma noite em que se queixava dos leitores, João
Cabral reafirmava seu profundo respeito e admiração por
Cardozo, ao qual dedicou vários poemas.
A
seleção de poemas que fecha o livro é um prazeroso
demonstrativo das teses levantadas por Maria da Paz, e
nos dá a chance de reler o poeta dentro de uma
perspectiva mais iluminada e enriquecida. Joaquim
Cardozo certamente sentiria orgulho desta sua leitora.
(Leia mais na edição 44 da Revista Continente
Multicultural. Já nas bancas.)
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